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- Raízes que Constroem: 15 anos da Aventura - Os aprendizados da pandemia para a metodologia da Aventura de Construir
No novo artigo da série Raízes que Constroem, retomamos os aprendizados que a pandemia deixou para a Aventura de Construir. Mais do que adaptar atividades e desenvolver novas ferramentas, a organização precisou encontrar maneiras de preservar a proximidade com os microempreendedores em um contexto de distanciamento. Para Silvia Caironi, fundadora da AdC, esse período reforçou uma convicção que acompanha a trajetória da organização: a transformação acontece quando o apoio aos negócios também contribui para o desenvolvimento integral das pessoas. A equipe continuou fazendo diferença na vida de muitos empreendedores. Silvia lembra particularmente de um fato que a comoveu muito. Raquel repassou uma mensagem do empreendedor Carlos Raposo, da Zona Oeste, que, internado na UTI, lembrou que, por meio da convivência com as pessoas da AdC, havia aprendido que na vida precisava lutar e ser protagonista. Ele se deu conta de que poderia sobreviver mesmo diante daquele acontecimento extremo. “Essa é a transformação que a AdC é chamada a fazer: uma pessoa que esteve em um momento limítrofe e se lembrou de nós para lhe dar forças e lutar. Isso nos relembra a importância dos ensinamentos das assessorias e da metodologia; mostra que os empreendedores levam isso para suas vidas, deixando clara a formação humana integral, o pilar do nosso trabalho”, afirma Silvia. A passagem do presencial para o online também revelou que muitos aspectos do relacionamento com os empreendedores, antes considerados naturais, precisavam ser trabalhados de maneira mais intencional. “O tema da formação humana integral começou a ser algo mais formalizado juntamente com o uso da tecnologia e os tutoriais. O acompanhamento online precisava reforçar a geração deste vínculo”, diz Silvia. A adaptação exigiu flexibilidade e disposição para rever práticas. Silvia destaca a gratidão às pessoas que trabalharam na AdC naquele período, pela abertura para repensar o que não funcionava e mudar quando necessário. As reuniões semanais se tornaram espaços para discutir as situações que surgiam e encontrar, em equipe, novas formas de agir. Foi também nesse contexto que a organização começou a trabalhar com Mayara na produção de publicações sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Em 2021, a AdC retomou o contato com a Inter-American Foundation e estabeleceu parcerias com a Missão Paz e a Casa Venezuela. Uma reunião on-line reuniu representantes das organizações, que conversaram em diferentes idiomas. O encontro resultou na aprovação de um projeto para 2022. A experiência também evidenciou a capacidade dos próprios empreendedores de mobilizar recursos e apoiar suas famílias. Silvia recorda a trajetória de Vagner, policial aposentado que se tornou empreendedor após a aposentadoria e passou a produzir facas artesanais. Ao aprender a classificar e divulgar seus produtos, ele conquistou novos clientes e chegou a exportar facas personalizadas. Outra aproximação importante foi com a Catálise Social, por meio de Vinicius Picanço, professor do Insper. Em dezembro de 2019, ele havia visitado alguns empreendedores e sugerido uma colaboração mais próxima entre as organizações, com a participação voluntária de estudantes. Mais tarde, a Catálise Social apoiou o relatório de sistematização do Projeto AIPÊ, em 2025. A preocupação em compreender os resultados do trabalho também ganhou força nesse período. Um estudo comparou empreendedores acompanhados pela AdC com outros selecionados aleatoriamente. Para Silvia, a análise mostrou diferenças relevantes entre os grupos e evidenciou a qualidade dos negócios acompanhados pela organização. Os resultados foram apresentados ao Conselho Consultivo em agosto de 2021, quando a AdC começava a celebrar seus dez anos de atuação. Ao olhar para o legado da pandemia, Silvia destaca o aprendizado com as ferramentas digitais e a capacidade de adaptação da equipe, que conseguiu manter a eficiência em um ambiente de trabalho inteiramente novo. Mas a experiência deixou uma lição que vai além da tecnologia: acompanhar um empreendedor significa construir uma relação de confiança, reconhecer sua realidade e fortalecer sua autonomia para enfrentar desafios. A história da Aventura de Construir é feita de mudanças, parcerias e aprendizados, mas também de princípios que permanecem. Partir da realidade, colocar a pessoa no centro e construir pontes entre empreendedores, organizações, universidades e empresas são elementos que atravessam sua trajetória. Ao completar 15 anos, a AdC reconhece nessa experiência a força de uma metodologia construída na prática, a partir dos encontros e das necessidades concretas dos territórios. Esta foi mais uma etapa da série Raízes que Constroem, que revisita os caminhos percorridos pela Aventura de Construir e as pessoas que fizeram parte dessa história. Uma trajetória que continua a se transformar, mantendo o compromisso de apoiar o crescimento pessoal e a transformação socioeconômica. Afinal, construir futuros é um trabalho coletivo.
- Construindo uma nova história no Terceiro Setor: livro registra fusão entre Aventura de Construir e CDM
O que acontece quando duas organizações da sociedade civil decidem unir suas trajetórias? Como preservar uma missão, uma identidade e uma história construídas ao longo dos anos enquanto se abrem novos caminhos para o futuro? Essas são algumas das questões que atravessam o livro “Construindo uma nova história no Terceiro Setor: a fusão entre a Aventura de Construir e CDM”, lançado em setembro de 2026, como parte das celebrações dos 15 anos da Aventura de Construir. A publicação documenta e analisa o processo de integração entre as duas organizações, transformando uma experiência institucional concreta em um registro que pode contribuir para o debate sobre sustentabilidade, governança e transformação no Terceiro Setor. Foi escrita por Ines Girace e Luca Delmonte, voluntários italianos da Aventura de Construir, que realizaram duplo mestrado entre a Università Bocconi e a FGV EAESP. Um registro sobre uma experiência ainda pouco documentada Fusões e incorporações são práticas conhecidas no mundo empresarial, mas ainda são pouco frequentes e pouco documentadas entre organizações da sociedade civil no Brasil. Mais do que uma parceria ou uma colaboração pontual, uma fusão envolve mudanças estruturais, revisão de governança, redistribuição de responsabilidades e a construção de uma nova identidade institucional. O livro parte justamente dessa perspectiva. Em vez de apresentar uma fórmula ou um modelo pronto, a publicação analisa o caso da Aventura de Construir e da CDM. para compreender como uma decisão de integração foi construída, quais alternativas foram consideradas, quais desafios surgiram e quais condições tornaram esse caminho possível. Por isso, a publicação não pretende oferecer respostas definitivas para organizações que considerem uma fusão. Seu objetivo é compartilhar perguntas, escolhas, aprendizados e desafios que fizeram parte dessa experiência, contribuindo para que outras organizações possam refletir sobre seus próprios caminhos. Da Aventura de Construir à construção de novos caminhos A publicação também recupera a trajetória das duas organizações e ajuda a compreender os pontos de encontro que tornaram a integração possível. A Aventura de Construir atua desde 2011 com acompanhamento, formação e desenvolvimento de microempreendedores de baixa renda, especialmente nas periferias. Ao longo de sua trajetória, consolidou uma metodologia baseada no acompanhamento próximo, na formação e no fortalecimento de capacidades, com foco no desenvolvimento territorial inclusivo. A CDM., por sua vez, tem origem em 1986 e construiu uma trajetória de atuação em projetos sociais em diferentes territórios, desenvolvendo experiência em gestão, articulação de redes e desenvolvimento social. O estudo identifica convergências entre as duas organizações, especialmente na centralidade da pessoa, no protagonismo e na construção de transformações sustentadas. Ao mesmo tempo, aponta diferenças de escala, estruturas e formas de atuação que precisaram ser consideradas durante a integração. É justamente nessa combinação entre raízes e novos caminhos que está uma das principais questões do livro: como uma organização pode se transformar sem perder aquilo que dá sentido à sua existência? Um livro para o Terceiro Setor Ao tornar público o processo de fusão, a Aventura de Construir e a CDM. também procuram contribuir para uma cultura maior de documentação e compartilhamento de experiências no Terceiro Setor. A proposta é que a experiência registrada possa ser útil para profissionais, lideranças e organizações que estejam refletindo sobre sustentabilidade institucional, governança, integração ou novos formatos de colaboração. Mais do que contar a história de uma fusão, “Construindo uma nova história no Terceiro Setor” registra uma experiência de transformação e deixa perguntas para o futuro: como fortalecer organizações sociais? Como garantir a continuidade de uma missão? E como construir novas possibilidades sem perder as raízes que deram origem a uma trajetória? Acesse gratuitamente o livro O livro “Construindo uma nova história no Terceiro Setor: a fusão entre a Aventura de Construir e CDM” está disponível gratuitamente em formato digital. Acesse o livro completo aqui Baixe em formato EPUB A publicação marca um momento importante na história da Aventura de Construir, que completa 15 anos em 2026 e inicia uma nova etapa a partir da integração com a CDM. Das raízes, novos caminhos. Uma nova história para o Terceiro Setor.
- Raízes que Constroem: 15 anos da Aventura - As iniciativas que fortaleceram os empreendedores durante a pandemia
Neste novo capítulo da série Raízes que Constroem, que conta a história da Aventura de Construir desde a sua fundação até completar 15 anos de história, voltamos à pandemia de COVID-19 e como foi fundamental a adaptação no trabalho da organização. Como transformar uma crise em novas possibilidades de atuação? Para a AdC, a resposta passou pela criação de parcerias, pela mobilização de recursos e pelo desenvolvimento de iniciativas capazes de responder às necessidades concretas dos microempreendedores. Durante a pandemia, a organização ampliou suas formas de apoio, aproximou diferentes atores e experimentou novos caminhos para fortalecer os negócios, sem perder de vista seu compromisso com o protagonismo das pessoas e o desenvolvimento dos territórios. Uma iniciativa importante nessa época foi a criação do Fundo Patrimonial da Aventura de Construir, iniciativa que chamou a atenção da mídia e diversos apoios. Também neste período a AdC fez uma parceria com o Banco de Alimentos para a distribuição de cestas básicas para os empreendedores. “Nosso método não é assistencialismo, mas o desenvolvimento de protagonistas dentro dos territórios. Por isso pedimos ao Banco de Alimentos a distribuição de vouchers para usar nos mercadinhos das periferias, com a distribuição de mais de 500 no valor de R$ 100, e que foi um importante apoio no período, além de estreitar contato com os empreendedores e suas famílias”, destaca Silvia. Essa distribuição engendrou novas possibilidades de conhecer as famílias dos bairros, principalmente as mais carentes. Por meio desse networking, muitos encontraram trabalho. “O método da AdC ficou claro: partir da realidade e da centralidade da pessoa, formação de pontes, e formação da pessoa humana integral e era ainda mais evidente que partíamos da realidade”, aponta Silvia. O Instituto de Cidadania Empresarial, organização do terceiro setor, procurou a AdC para desenvolver programas em conjunto por serem os pioneiros no trabalho on-line com os empreendedores. Em julho de 2020 iniciou-se um novo programa chamado Crescendo em Rede com microempreendedores de impacto. “Um dos pontos focais do projeto foi o trabalho com empreendedores de todo o Brasil: o fato de ser on-line facilitou essa proposta, unindo pessoas da Amazônia e até do Peru. Todos se deram conta que o crescimento acontece em rede e não como competidores. Uma organização como a nossa tem uma responsabilidade com esse crescimento que acontece em rede”, explica Silvia. Esse programa contou com avaliadores de peso como Mariana Almeida, superintendente da Fundação Tide Setúbal, Edgard Barki, diretor do Centro de Empreendedorismo da Fundação Getúlio Vargas, e Vivianne Naigeborin, superintendente da Fundação Arymax, entre outros. Essa avaliação foi fundamental para a distribuição do capital semente para dez empreendimentos, que variou de R$ 3,5 mil a R$ 10 mil conforme o plano de negócio de impacto social. “Foi um momento muito relevante para a organização da AdC porque não é fácil contar com pessoas deste nível na avaliação dos negócios dos empreendedores”, aponta Silvia. Franklin, professor titular da Universidade Federal de Manaus (AM) e coordenador do curso de Administração Pública, que ministra cursos on-line para 150 alunos, diz que a AdC propiciou um aprendizado que traz até hoje. Recém-contratado pela AdC quando começou a pandemia, conta como viveu esse período: “Trabalhei um mês de forma presencial, e depois fomos para casa. Silvia foi atenciosa quanto ao momento que vivíamos, em relação à nossa saúde e como fazer as consultorias com os empreendedores de forma on-line. Era difícil acompanhar as finanças e os negócios de forma virtual. Aos poucos os empreendedores foram aderindo e nós fomos aperfeiçoando as atividades. Muitos avaliaram fechar seus negócios e a parceria com o Banco de Alimentos, financiado pelo Carrefour, foi fundamental. Um exemplo bem impactante, foi de uma empreendedora que tinha um faturamento de R$ 1 mil e ficou em uma situação difícil por não pagar o aluguel. Nós acionamos a área jurídica da AdC para que não fosse despejada e tudo isso gerou uma proximidade maior com ela e muitos outros a partir da entrega das cestas básicas e vouchers”, completa Franklin. Ele lembra que um empreendedor os procurou para fazer um plano de negócios. “Por meio da assessorias on-line, acionamos empreendedores voluntários, inclusive de outros estados, para nos ajudar, pois não tínhamos especialistas nessa área”, diz Franklin. Com esse trabalho conjunto, o plano de negócios de uma empresa de esquadrias de janelas foi finalizado com projeção de investimentos e orientações para três anos. No primeiro ano a empresa alcançou retorno acima do esperado, fechando um contrato de R$ 3 milhões. “Hoje essa empresa funciona com 27 funcionários, e o empreendedor entrou em contato várias vezes conosco para agradecer por tudo que fizemos”, diz Franklin. As iniciativas daquele período mostraram que o apoio aos empreendedores poderia ir além das assessorias e capacitações tradicionais, conectando pessoas, organizações e recursos em torno de objetivos comuns. Mas a experiência também trouxe uma reflexão fundamental: como preservar, no ambiente virtual, a proximidade e a confiança que fazem parte do acompanhamento oferecido pela AdC? Essa questão nos leva ao próximo capítulo, dedicado aos aprendizados que a pandemia deixou para a metodologia da organização e à importância da formação humana integral em seu trabalho.
- Raízes que Constroem: 15 anos da Aventura - Como a Aventura de Construir enfrentou o início da pandemia?
Nesta quarta-feira, retomamos a série Raízes que Constroem, que conta a história da Aventura de Construir desde a sua fundação até completar 15 anos de história. Acesse os textos anteriores neste link. A chegada da pandemia de Covid-19, em março de 2020, colocou a Aventura de Construir diante de um desafio sem precedentes. Além da necessidade de reorganizar suas atividades e buscar novas fontes de financiamento, a organização precisava compreender como apoiar os microempreendedores acompanhados em um cenário de incertezas, fechamento de estabelecimentos e dificuldades econômicas. Neste novo capítulo da série Raízes que Constroem, Silvia Caironi, fundadora da AdC, e Franklin Menezes, ex-consultor da organização, relembram as decisões e os aprendizados que marcaram esse período de transformação. Para continuar existindo, a AdC precisava captar recursos e a independência financeira da Umano Progresso foi gradativa. No final de 2019, Silvia conversou com o presidente do Instituto Syn, ligado à Cyrela, para o financiamento de projetos, e em 2020 começou ainda com alguns recursos da fundação italiana. Em paralelo a AdC apresentou um projeto para a Inter-American Foundation, uma organização do governo dos Estados Unidos que recebe recursos autorizados pelo Congresso norte-americano sobre migração. Em fevereiro de 2020, a Inter-American Foundation entrou em contato dizendo que queriam visitar a AdC. “Era uma sexta-feira à tarde, eu estava no escritório, e fiquei surpresa porque ligaram no meu telefone fixo. A pessoa se apresentou dizendo que queria nos visitar no dia 20 de março, sendo que estávamos no dia 12”, conta Silvia. Foi exatamente neste dia (12) que decidiram fechar o escritório devido ao início da pandemia. Naquele período, a AdC contava com a Matilde, Raquel, Franklin e Adriano; Mayara na área de captação, e o Victor na comunicação. O fechamento do escritório foi uma decisão difícil, porque todas as atividades, capacitações e assessorias aos empreendimentos, aconteciam presencialmente. “A partir do dia 12 de março, não sabíamos o que fazer e não só nós”, diz Silvia. Não se tinha ideia da gravidade da pandemia, como se dava o contágio, nem como lidar com a situação dos empreendedores. Os desafios para os microempreendedores eram grandes a partir da perspectiva do fechamento das lojas. “Estávamos tentando entender todos os aspectos daquele cenário”. A segunda preocupação era como eles poderiam se sustentar. “Em conjunto com a Raquel e o Franklin começamos a ligar para a casa dos empreendedores ativos, que eram mais ou menos 200 que participavam de atividades e projetos da AdC”, explica Silvia. A decisão de fechar o escritório foi tomada em conjunto. “Quando nos perguntavam: Como vão trabalhar? Nossa resposta era: entendemos que a vida é mais importante que o projeto. A Itália, sobretudo a região da qual eu venho, foi uma das mais afetadas: sabendo o que acontecia lá, tínhamos uma grande preocupação com a nossa situação”, ressalta Silvia. Além de ligar para os empreendedores, a AdC preparou uma apresentação para ajudá-los a lidar com a situação. Nesse período, começou o acompanhamento sobre a sustentabilidade dos negócios e uma das consequências foi a introdução de ferramentas de comunicação on-line, começando com o Skype, depois o Zoom e o Google Meet. Nas palavras da Silvia, foi um importante ponto de virada para entender o que os empreendedores precisavam naquele momento. Foi um período de grandes dúvidas entre os empreendedores e a sociedade em geral. Um ponto importante nesta época foi o diálogo com as ONGs e Obras Sociais da Itália que pertencem ao Grupo da Companhia das Obras. “Sendo que a Itália estava mais à frente na pandemia, eles encararam o problema antes de nós. A pergunta principal era qual método adotar nessa situação? E qual ferramenta? O presidente da Companhia de Obras, em uma live, disse que o problema não é a ferramenta, mas o resultado que se pretende alcançar e como se mover em busca desse resultado, sendo que as condições mudaram”, explica Silvia. Silvia, Mayara e Raquel decidiram reescrever todo o projeto do Instituto SYN em uma lógica de trabalho on-line, a partir do Zoom. Silvia conta que nesse período, o ponto principal foi entender que o problema não era a ferramenta usada, que foi do presencial para o on-line, mas gerar um vínculo com o microempreendedor dentro de um contexto virtual. “Um movimento que mostrou a unidade da equipe foi a decisão conjunta de baixarmos nosso faturamento, já que estávamos trabalhando em casa. Outro ponto relevante foi que no fechamento do escritório, entendemos que precisávamos de um espaço maior e com mais ventilação, mudando para o prédio em que estamos até hoje”, diz Silvia. A transição para o ambiente virtual exigiu mais do que a adoção de novas ferramentas: foi preciso repensar a maneira de acompanhar cada empreendedor, preservar vínculos e adaptar os projetos à realidade que se impunha. Enquanto a equipe encontrava formas de manter suas atividades, também surgiam novas possibilidades de colaboração e mobilização de recursos. No próximo capítulo, vamos conhecer as iniciativas e parcerias que ampliaram as formas de apoio aos negócios e fortaleceram a atuação da Aventura de Construir durante a pandemia.
- A física do pertencimento: como transformar presença local em confiança e autoridade
Por Rogério Passos e Sarah Alves A internet é hoje um dos principais caminhos para conquistar clientes, mas ela não precisa ser a única. Para muitos pequenos negócios, olhar para o próprio bairro também pode ser uma estratégia importante de crescimento. Existe uma força na familiaridade: quando as pessoas veem sua loja, reconhecem sua marca e sabem onde encontrar você, o negócio começa a fazer parte da rotina da região. Essa presença pode ajudar a construir confiança e aproximar a empresa de potenciais clientes. Todos os dias, pessoas passam pela sua rua a caminho do trabalho, da escola ou de outros compromissos. Uma fachada bem cuidada, uma placa ou uma vitrine podem despertar a curiosidade de quem passa. A partir daí, o próximo passo pode acontecer no digital: a pessoa procura o negócio no Google, acessa as redes sociais ou entra em contato pelo WhatsApp. Ou seja, rua e internet não precisam disputar a atenção do cliente. Uma pode fortalecer a outra. A presença local ganha ainda mais força quando é acompanhada de uma boa experiência. Um cliente satisfeito pode recomendar o negócio para amigos, vizinhos e familiares e a indicação de alguém próximo ajuda a gerar confiança. Com o tempo, boas experiências e recomendações podem criar uma rede de relacionamento ao redor da marca. O seu bairro já reúne pessoas que podem se tornar clientes. Para aproveitar esse potencial, porém, é importante ter planejamento: Entenda a rotina do bairro e o perfil dos moradores. Observe os horários de maior movimento, os hábitos de consumo da região e necessidades que ainda não são bem atendidas. Converse com moradores e clientes para entender o que procuram e quais dificuldades enfrentam. Transforme um bom atendimento e relacionamento. Atender bem é essencial, mas pequenos gestos podem tornar a experiência mais pessoal. Conhecer clientes recorrentes, lembrar suas preferências e manter um pós-venda atencioso ajuda a fortalecer o vínculo e aumenta as chances de recomendação. Conecte a presença física ao digital. Uma fachada convidativa pode ser o primeiro contato, mas facilite o próximo passo. Mantenha as informações do negócio atualizadas no Google Maps, cuide dos canais digitais e participe, quando fizer sentido, de espaços online da comunidade. Parcerias com outros comerciantes da região também podem ampliar sua visibilidade. Quando essas ações acontecem de forma consistente, a marca deixa de ser apenas mais um comércio da região e passa a ocupar um lugar na rotina das pessoas. É dessa combinação entre presença, relacionamento e confiança que pode nascer uma autoridade difícil de construir apenas com anúncios.
- Raízes que Constroem: 15 anos da Aventura - Sustentabilidade, desafios e amadurecimento da metodologia
Na sexta parte da série Raízes que Constroem, voltamos ao período entre 2015 a 2019 da Aventura de Construir. Os entrevistados refletem sobre os desafios da sustentabilidade financeira da organização, os aprendizados construídos ao longo dos anos e o amadurecimento de uma metodologia centrada no desenvolvimento humano integral. Mais do que recordar conquistas, este é um momento de olhar para os princípios que orientaram a AdC e continuam guiando sua atuação. Você pode ler a parte anterior neste link. A entrevista reuniu Silvia Caironi, fundadora da Aventura de Construir; Rafael Mahfoud Marcoccia, jornalista e professor de Sociologia e Filosofia na FEI e diretor da AdC; Marcelo Turri, engenheiro mecânico pela Poli-USP com MBA Administração de Negócios no Insper e vice-presidente da AdC. Marcelo Turri aponta os desafios da captação de recursos. “Apesar de tudo o que foi feito, todas as consultorias estratégicas, táticas, operacionais e o posicionamento externo da AdC, o momento para captação era muito difícil. Vou dar um exemplo: ficamos três meses conversando com uma empresa que produz ovos para nos ajudar como OSCIP. O projeto foi aprovado como incentivado, o que permite às empresas que pagam imposto de renda dediquem até 4% para um projeto homologado na Receita Federal. Conversamos por vários meses. E no final ficamos sabendo que a empresa não pagava imposto porque seu produto faz parte da cesta básica. Pode ter sido um erro não ter tido essa visão no início. Mas independente disso, a captação é sempre um grande desafio. Falamos muito rapidamente aqui do endowment que é um modelo que acho estratégico e bem pensado, principalmente para as empresas e famílias que querem deixar um legado, contribuindo para um fundo que está começando no Brasil. Entramos em contato com universidades, Fundação Getúlio Vargas, Unesco. Tentamos em todas as frentes. Para mim é um grande desafio, conseguir fazer o que a Silvia faz, que liga para o presidente da empresa e pergunta ‘por que você não financia um projeto nosso?’ Ela avança e chega lá”, completa Marcelo. Rafael Marcoccia também destaca as dificuldades da captação. “Há pouco tempo, a Silvia comentou sobre as causas que mais recebem ajuda, as que mais promovem, que mais convencem as pessoas a doar, e o empreendedorismo não era uma delas, embora tenha melhorado um pouco. Essa é uma causa que é menos evidente para receber financiamento, por isso, o trabalho de convencimento necessário com os financiadores é muito grande. Para mim, continua um grande desafio, e quando tentamos o endowment não conseguimos ganhar tração”. Para Silvia, o que atrai os financiadores é o conhecimento da importância da causa. “O Instituto SYN tem claro a importância da geração de renda. No caso da Lamberti, é a clareza de dar oportunidades às pessoas para as quais trabalhamos. Entendo também que eles têm uma visão prévia que faz com que tenhamos uma correspondência. Conheci primeiro o dono da Cyrela e ele me apresentou ao Aron, presidente do Instituto SYN, e daí nasceu uma amizade que tem dez anos. Conheci a Lamberti por meio de um amigo advogado italiano. Com o Instituto SYN são sete anos e a Lamberti seis.” Refletindo sobre o período 2015-2019, na opinião de Marcelo Turri, a AdC está mais viva agora. “Tudo parte da realidade do empreendedor que continua muito presente hoje. O empreendedor é protagonista. E nada é feito que não considere a realidade de cada um, tanto que, o início do projeto começa entrevistando cada um deles. Depois os acompanhamos individualmente até o final. A questão da realidade está sempre presente”. “Acho bonito a questão do atendimento integral e de não criar muros. É importante lembrar que a AdC acompanha integralmente e sistematicamente os empreendedores e isso é reconhecido pelos stakeholders”, diz Silvia. Rafael Marcoccia, completa: “Priorizamos o desenvolvimento integral do microempreendedor, da pessoa. Uma coisa marcante desse período é que as oficinas não eram só técnicas. Uma falou sobre planetas, as estrelas, sobre astronomia. Outra abordou a beleza e outra ainda falamos sobre política. Tinha uma preocupação com todos os aspectos da vida de uma pessoa que não é só a questão do que precisa de mais urgente para alavancar o negócio, sem desconsiderar os outros aspectos que também são muito importantes. Isso em uma época em que se podia conversar de política sem ser massacrado de um lado ou de outro. Foram uma série de formações muito bonitas. Acho a AdC viva desde o início, nesse período e ainda hoje, com escuta ativa a partir da realidade, observando a realidade escutando os microempreendedores. Por isso que cada projeto é único, singular e respeita a necessidade, o desejo do empreendedor. Obviamente, ensinando e educando. Não é uma coisa solta. É uma escuta ativa, de observar a realidade e de fato colocar a pessoa como centro, acreditar na sua capacidade, liberdade e autonomia quando tem uma oportunidade. Então, para mim, desde sempre, esse foi o aspecto mais vivo, os empreendedores são chamados cada vez mais ao centro, e terem uma voz. Isso é o amadurecimento: colocar o microempreendedor, a pessoa, no centro de tudo. E as formações são expressão disso”. Segundo Silvia, essas formações foram experiências muito ricas e a origem da ideia da formação humana integral. “Foram pessoas que davam formações sobre temas que são muito adequados aos microempreendedores, usando a razão como uma abertura à realidade. Eles vivem em condições nas quais os desafios são tão grandes que não enxergam que a vida é algo maior e não são educados a usar a razão como abertura à realidade. E ela completa: “Educar a beleza, educar a razão, é uma ferramenta ampla para enxergar a realidade. A formação humana integral nasceu por isso. As memórias desse período mostram que o crescimento da Aventura de Construir foi sustentado pela capacidade de aprender com a realidade, fortalecer relações de confiança e manter a pessoa no centro de todas as decisões. Ao consolidar sua metodologia, ampliar sua rede de parceiros e reafirmar o compromisso com o desenvolvimento humano integral, a AdC encerrou esse ciclo preparada para enfrentar novos desafios, sem perder a essência que marcou sua trajetória desde o início: construir caminhos ao lado dos microempreendedores, respeitando suas histórias, potencialidades e sonhos.
- Raízes que Constroem: 15 anos da Aventura - Captação de recursos, posicionamento e fortalecimento da marca
Após consolidar sua identidade institucional e fortalecer sua governança, a Aventura de Construir iniciou uma nova etapa de desenvolvimento. Nesta quinta parte da série Raízes que Constroem, os entrevistados relembram como a organização estruturou sua estratégia de captação de recursos, ampliou sua rede de parceiros, fortaleceu seu posicionamento institucional e deu visibilidade à causa do empreendedorismo nas periferias, criando as bases para sua sustentabilidade e crescimento. A entrevista reuniu Adriano Gaved, que trabalhou como consultor na AdC neste período, Rafael Mahfoud Marcoccia, jornalista e professor de Sociologia e Filosofia na FEI e diretor da AdC; Marcelo Turri, engenheiro mecânico pela Poli-USP com MBA Administração de Negócios no Insper e vice-presidente da AdC; Rafael Neves, consultor de Advocacy no Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) e ex-integrante do conselho consultivo da AdC, e Giacomo Villa, que trabalhou na AdC em 2014-2015 e atualmente é COO e Head of Sales na Manifattura A. Testori di G. SpA da Itália. Um ponto importante na trajetória da AdC foi a parceria com as consultorias McKinsey e Accenture. “Tínhamos claro onde queríamos chegar e como nos posicionar para os parceiros externos. Não sabíamos como fazer captação e, por indicação do Marcelo Turri, conseguimos apoio das consultorias McKinsey e da Accenture que estão entre as maiores consultorias do mundo. Naquele momento, uma parceria assim era inalcançável, mas através da relação do Marcelo Turri, que trabalhava na Alpargatas, e com um voluntário da Accenture, conseguimos esses dois apoios. Elas nos ajudaram no posicionamento estratégico e tático no mercado para consolidar a forma de nos apresentar”, detalha Silvia. Marcelo Turri explica como aconteceu o “match” entre a AdC e as consultorias: “Por meio de um amigo que tinha trabalhado comigo, conseguimos que essas consultorias nos ajudassem de forma pro bono, isto é, sem cobrar, porque gostaram do projeto. A estratégia na época era pensar na sustentabilidade, para não depender somente da Itália. Foi um projeto longo que durou oito meses e muita gente envolvida para montar um modelo de posicionamento estratégico e acentuar o posicionamento tático-operacional”. Além das consultorias, a entrada da AdC no Pacto Global foi mais um passo rumo à consolidação da imagem para o público externo. Rafael Neves detalha este momento: “Entre 2016 para 2017 sentimos necessidade de uma área de captação de recursos bem estruturada. Foi um desafio porque o terceiro setor, naquele momento, estava numa fase bastante peculiar de estruturação e amadurecimento. Tanto que depois, em 2018, foi sancionada a lei dos fundos de endowment no Brasil. Nesse período surgiu a oportunidade de a AdC passar por um processo de consultoria com a Criando com o professor Michel Freller e a equipe da Associação Brasileira de Captadores de Recursos, em um trabalho de um ano”. Além da Umano Progresso, a AdC recebeu aportes do Instituto Cyrela, Marcelo Turri e Martus Tavares. “A ideia não era usar recursos apenas da Umano Progresso, por isso a ajuda das consultorias e do Michel Freller. Foi um ano de trabalho bastante intenso, de revisão de processos internos, de mapeamento, de capacitação da equipe. A ideia era envolver toda a equipe na captação”, diz Silvia. “Foi um trabalho não só de estruturação de processos, mas também de amadurecimento do corpo profissional e técnico. A partir daí houve um salto institucional da AdC na estratégia de captação de recursos, com um referencial organizado internamente para conseguir concorrer em editais. Obviamente, houveram idas e vindas, com momentos de frustração e de ajustes de expectativas. De uma maneira bem resumida, acabou sendo um processo em que AdC aprendeu bastante e se deparou com uma realidade peculiar, considerando que é uma associação que está muito inserida no território, com demandas e especificidades bastante particulares, em um processo rico em que todos aprenderam junto”, destaca Rafael Neves. O fruto desse trabalho foi o Manual de Captação de Recursos, atualizado pela Laura e o Andrea quando chegaram no início de setembro de 2025. Para Silvia, a captação de recursos não pode ser deixada à instintividade ou a um imediatismo. “É preciso algo profissional e estruturado, saber o que queremos e porque, e entender as infinitas possibilidades para depois escolher: a composição do manual e o conhecimento técnico foi um aprendizado, onde entram a capacidade pessoal e a empatia”, afirma. Tudo isso mudou a chave: o resultado foi um planejamento de três anos sobre quanto era necessário captar e quais seriam estratégias e canais táticos. “Com isso decidimos fazer dois eventos públicos para arrecadar recursos e divulgar a AdC. Dentro de nossa capacidade institucional, identificamos uma série de metas e desafios que tínhamos que mensurar”, destaca Silvia. A AdC organizou um concerto no Museu de Imagem e do Som (MIS), em São Paulo, com o pianista brasileiro Marcelo Cesena, que morou em Los Angeles (EUA) e hoje mora na Itália; e outro concerto com ele na Itália. “Foi uma aposta, pois nunca tínhamos pensado em fazer uma coisa desse tipo. Conseguimos o auditório do MIS gratuitamente, escolhemos as músicas e alugamos um piano de cauda. Foi muito bonito e de alto nível”, conta Silvia. Na Itália o concerto aconteceu em uma basílica de 1600 e arrecadou mais do que no Brasil devido ao valor do euro. “Meus amigos italianos ajudaram muito a divulgar o evento”, destaca. Para Marcelo Turri esse evento foi marcante: “O concerto do Marcelo Cesena no MIS foi muito bonito, pois entre os espectadores estavam os empreendedores. Foram convidados e eles estavam lá junto com a gente. No MIS, me chamou muita atenção, porque eles foram e gostaram muito, pessoas que nunca tinham colocado os pés no MIS antes”. Um marco importante nesse período foi a entrada no Pacto Global. Silvia explica o que representou para a credibilidade e o alcance da organização. “Em 2018 todo mundo falava dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável e precisava entender como a AdC se colocava dentro desse contexto. Ficou claro que participar dele permitia ter uma representatividade e imagem externa de alinhamento com os movimentos que estavam acontecendo no terceiro setor. O Pacto Global exige relatórios a cada dois anos, é uma organização séria e profissional e estar nela não é pouca coisa”, destaca Silvia. Outro evento marcante foi a campanha “Identificam-se Protagonistas” em 2019 a partir de pesquisas e análises de causas. Nessa época chegaram à AdC Raquel e a Mayara que se juntaram à Matilde e ao Adriano, além do Vitor, na comunicação. “A ideia é que fizéssemos algo para que se conhecesse mais a AdC, e, além de captar, incentivar a causa do empreendedorismo em periferia”, completa Silvia. Para isso, uma das ideias foi fazer uma exposição fotográfica em várias linhas do Metrô (linha vermelha, amarela e lilás), um dos lugares mais movimentados de São Paulo, com um fotógrafo que trabalhou pro bono com a duração de vários meses. Outra iniciativa foi um novo evento no MIS com os empreendedores, não como espectadores, mas para falar sobre suas experiências, que contou com a presença da estilista Martha Medeiros, internacionalmente conhecida. “O resultado foi um maior entendimento do valor do empreendedorismo”, conta Silvia. “Tanto a exposição quanto o movimento dos protagonistas, foi, para mim pessoalmente, um marco: você andava no metrô e via os painéis expostos, topava com uma foto no seu dia a dia, e atraiu muita atenção. Sempre tinha gente olhando e os painéis contavam com um QR Code para doações. Depois o momento dos empreendedores apresentarem suas experiências no MIS, onde eles eram o centro do evento contando suas histórias e falando da transformação que viveram. Acho que isso foi muito bonito, e para mim esse foi um ponto de virada”, aponta Rafael Marcoccia. Rafael Neves conta que entre 2016 para 2017, com a reestruturação da AdC e a busca por melhores práticas do terceiro setor, houve um boom de empresas de tecnologia, de crédito, de renegociação de dívidas, principalmente do Vale do Silício, refletido no Brasil por meio das fintechs que começaram a crescer. Além do Banco do Povo Paulista, surgiram muitas outras possibilidades de acesso ao microcrédito a partir da iniciativa privada e das fintechs. Foi assim que surgiu a parceria com a Firgum que entrou na rede de parceiros. “O objetivo era acompanhar o que tinha de mais moderno à época e que isso chegasse aos empreendedores, fazendo a ponte entre a alta tecnologia disponível na economia e as periferias de São Paulo, da Zona Oeste, da Zona Norte, isso nos motivou”. A Firgun foi indicada pela empreendedora Adriana Barros, porque fazia empréstimos também para aqueles empreendedores que tinham dívidas, indo além do Banco do Povo, que não fazia esse tipo de transação. “Como estávamos trabalhando fortemente com o tema de educação financeira e renegociação de dívidas, a Firgun oferecia a possibilidade de crescerem como empreendedores para liquidar suas dívidas”, diz Rafael Neves. Nessa época o nível de endividamento dos empreendedores estava crescendo e essa era a estratégia era oferecer outras possibilidades de empréstimos. “Essa parceria não se manteve porque, com a pandemia, decidimos não fazer mais microcrédito devido ao crescimento do nível de endividamento no país e no nosso público”, completa. Rafael Neves também acompanhou a parceria da AdC com a Caterpillar junto à área de responsabilidade social da empresa. “Foi um trabalho muito interessante, em conjunto com a consultoria Criando, unindo teoria à prática. Para mim particularmente, foi uma experiência muito rica, porque participei do projeto desde o começo e o vi tomando forma, até a execução e o follow-up. Sabemos como é difícil aprovar um projeto até o recurso chegar e ver sua evolução. Nesse caso específico, para mim foi uma oportunidade única de acompanhar tudo do começo ao fim”, destaca. Silvia conta que Rafael Neves foi fundamental nessa parceria, pelos relacionamento que abriu com a Fundação Americana. O recurso foi direcionado aos cursos de educação financeira em três territórios de São Paulo. Nesse período a AdC começou a expandir seu território além da Zona Oeste, alcançando a Vila Mariana e Vila Jacuí, na Zona Leste. “Foram momentos muito interessantes, porque vimos a teoria tomar forma”, diz Silvia. No final de 2019 Silvia entrou em contato com o atual Instituto SYN, propondo que financiassem um projeto piloto da AdC . Após um processo de negociação, o projeto foi aprovado e começou um relacionamento duradouro e de confiança, que gerou impactos significativos na geração de renda e experiências de sucesso nestes últimos anos em várias periferias de São Paulo. Nesse mesmo período a AdC recebeu um telefonema da Inter American Foundation que queria fazer uma visita à AdC para patrocinar um projeto para migrantes. No entanto, com a pandemia, tudo parou. “Ainda estávamos trabalhando com os recursos da Umano Progresso e neste período decidimos reduzir todos os nossos salários para continuar trabalhando”, diz Silvia. As iniciativas desse período demonstram que o fortalecimento da AdC foi resultado de um processo contínuo de aprendizado, planejamento e construção de relacionamentos. Ao profissionalizar a captação de recursos, ampliar sua presença institucional e estabelecer parcerias estratégicas, a organização conquistou maior sustentabilidade sem perder de vista sua missão. Esses avanços prepararam a AdC para enfrentar novos desafios e consolidaram as bases que permitiriam atravessar um dos períodos mais desafiadores de sua história: a pandemia.
- Raízes que Constroem: 15 anos da Aventura - Desenvolvimento institucional e a transformação em OSCIP
No segundo encontro da série Raízes que Constroem abordamos o período 2015 a 2019, marcado pela criação da OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público), parceria com a consultoria McKinsey e Accenture, entre outras, e a entrada no Pacto Global. Ainda nesta época: houve a parceria com a Firgum, o começo da captação via investimento social e privado, e a campanha Identificam-se Protagonistas. A entrevista reuniu Adriano Gaved, que trabalhou como consultor na AdC neste período, Rafael Mahfoud Marcoccia, jornalista e professor de Sociologia e Filosofia na FEI e diretor da AdC; Marcelo Turri, engenheiro mecânico pela Poli-USP com MBA Administração de Negócios no Insper e vice-presidente da AdC; Rafael Neves, consultor de Advocacy no Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) e ex-integrante do conselho consultivo da AdC, e Giacomo Villa, que trabalhou na AdC em 2014-2015 e atualmente é COO e Head of Sales na Manifattura A. Testori di G. SpA da Itália. Confira a seguir o quarto texto da série: Com a transformação da AdC em OSCIP, mudou não só o formato jurídico, como também a forma como a organização se apresentava ao mundo. Para Rafael Marcoccia, a mudança foi significativa, pois a AdC começou a ser olhada de forma mais global e holística para os microempreendedores. “O acesso ao microcrédito, é importante, mas em apenas um aspecto, pois se começa a olhar para os empreendedores de maneira mais ampla”. Além do acesso ao microcrédito, a AdC começa a oferecer uma educação aos negócios, não só de como formalizar, mas também quais passos iniciais devem ser dados, a separação entre as contas pessoais e jurídicas e a importância do CNPJ. “E uma preocupação em como aumentar o negócio, não só no sentido de acesso a recursos”, afirma Marcoccia. Foi uma semente do que foi amadurecido mais a frente, com o desenvolvimento territorial. “Não foi apenas uma questão formal, mas de metodologia: ficou mais evidente a centralidade da pessoa, enfatizado desde o início: com a fundação da OSCIP esse critério começa a ser observado de maneira mais ampla”, diz Rafael Marcoccia. Marcelo Turri, ressalta importância da centralidade da pessoa, desde a fundação da AdC: “O que não se perdeu, desde o período anterior à OSCIP, foi a preocupação com a pessoa, com o empreendedor e com o impacto. Já no início, quando comecei a participar, havia essa grande preocupação de entender, de fato, o grupo que era acompanhado pela AdC, o impacto que gerava comparado a outros grupos que não atendíamos”, diz Marcelo. Ele destaca ainda que a AdC conseguia medir claramente o impacto integral, econômico e social nos empreendimentos. Como participante do conselho consultivo, Rafael Neves lembra quando entrou na AdC: “Comecei como estagiário, logo virei consultor em 2017 para 2018, e aí a Silvia me convidou para participar do conselho consultivo, onde fiquei três anos, até 2021. Para mim, foi muito interessante ver a evolução da AdC, tanto do ponto de vista de estar no dia a dia da organização como pela oportunidade de acompanhar mais, posteriormente integrando o conselho consultivo. Essa virada para OSCIP, para mim, foi muito interessante, porque estava começando a entender esse universo do terceiro setor, acompanhando o amadurecimento das discussões do conselho consultivo e do fundo de endowment e a preparação dos documentos necessários para a AdC ser OSCIP e entrar no Pacto Global. É nítido o amadurecimento da associação em termos de governança. Para mim foi uma escola ver o desenvolvimento da associação que tem uma missão muito importante ainda hoje, depois de 15 anos, para a população”, afirma. Giacomo Villa, que trabalhou na AdC entre 2014 e 2015 na captação e no suporte para as capacitações, avalia esse período: “Para mim, o impacto dessa experiência com os empreendedores da AdC, foi sobretudo acompanhar a Silvia e os colaboradores, e como a organização enxerga o ser humano, o interesse e a profundidade na compreensão das necessidades das pessoas. Depois descobri que isso tinha a ver, de fato, com uma concepção do que é o humano. Só é possível olhar o ser humano assim se você tem uma certa concepção para entender esse dom. Isso foi algo importantíssimo na minha experiência profissional. Esse processo, que depois se desenvolveu como método, não estava ainda presente, mas com certeza as raízes já tinham começado. Esse método que aprendi e que hoje eu levo para o meu trabalho na Itália, é o método da realidade. Por exemplo, a captação de recursos, o desenvolvimento das parcerias, os encontros, os relacionamentos, o que acontecia, de fato, virava método e era aprofundado. Tudo que acontece dentro ou fora da organização, é ferramenta para a tomada de decisão. Além dos desafios que eu posso encontrar hoje como empreendedor, sei que o que acontece vai virar uma ajuda e amadurecer uma decisão”, destaca. Para Silvia Caironi, a mudança de LTDA para OSCIP foi um marco para começar a captar recursos além da fundação filantrópica italiana Umano Progresso. “A OSCIP fez da AdC uma entidade própria que nascia de uma experiência, mas que tinha todo um aspecto de autonomia e protagonismo, trabalhado junto com o presidente da Umano Progresso, Angelo Abbondio e Fabrizio Pelicelli, diretor da AVSI na América Latina, e que posteriormente entrou para o conselho fiscal e na assembleia da AdC. Para se tornar uma OSCIP é necessário criar uma associação e que pode demorar anos: nós conseguimos em quatro meses. Nesse percurso, sinto muita falta da Matilde Silva, responsável administrativa da AdC, que faleceu em 2024 pois todo esse processo foi uma construção conjunta e representou uma virada de chave.” Como OSCIP a AdC se apresentou ao mercado com as credenciais de ter um Conselho Fiscal e uma Assembleia: foi uma transformação radical, do ponto de vista societário e de imagem. “Dentro, o trabalho era basicamente o mesmo, só que havia a possibilidade de fazer a captação de recursos com mais seriedade. Como Limitada pagávamos impostos, e como OSCIP nos transformamos em uma organização do terceiro setor que precisava de um tempo para alcançar a sustentabilidade”, continua Silvia. Com o aporte inicial de 1 milhão de euros e posteriormente mais 350 mil euros foi possível ter tranquilidade para iniciar o aprendizado da captação. Para esse trabalho a AdC contratou uma consultoria e recebeu aportes do Instituto Cyrela e do Marcelo Turri. Marcelo relembra como chegou à AdC: “Eu faço parte de um movimento católico, Comunhão e Libertação. Quando chegou essa italiana do Peru aqui no Brasil, fui conhecê-la por indicação do Padre Julian de La Morena, que nos apresentou e contou sobre o trabalho e como eu poderia ajudar. Sou muito grato por existir uma entidade que se preocupa em educar as pessoas para que elas não dependam simplesmente do Estado, mas que empreendam, desenvolvam negócios próprios. Não sou contra o Estado, fui educado graças ao Estado. Fiz todas as séries, primeiro grau, segundo grau, terceiro grau e universidade, tudo em escola pública. Mas acho que o que falta no Brasil é esse incentivo, ou mais auxílio para que as pessoas não dependam tanto do Estado, mas empreendam e gerem renda a partir do seu protagonismo. Achei muito bacana isso na AdC e foi isso que me motivou a estar aqui, ajudando a Silvia Caironi e todos que estão aqui atualmente.” Rafael Marcoccia vem da mesma experiência: “Participo do mesmo movimento que o Marcelo. Um dia a Silvia me ligou e perguntou se eu queria ajudar na AdC. Ela me explicou a transformação de Limitada para OSCIP e se eu queria fazer parte da diretoria. Trabalhando na universidade fiz pesquisa justamente na área que inicialmente a AdC atuava, a Associação dos Trabalhadores Sem Terra de São Paulo ligada à moradia. Fiz pesquisas com eles no meu mestrado e doutorado. Topei, e estou na AdC desde então. O que me motiva é muito parecido com o que o Marcelo falou, porque as minhas pesquisas, do ponto de vista da academia, foram focadas justamente na centralidade da pessoa e num princípio político que se chama subsidiariedade, de você dar força para as organizações locais, para as organizações da sociedade civil, para que elas possam fazer bem o seu trabalho com toda a sua criatividade, sua liberdade e sua autonomia. Eu via na AdC uma expressão concreta na sua metodologia, na maneira de enxergar as coisas, de trabalhar esse princípio da centralidade da pessoa, o desenvolvimento humano integral, de olhar a pessoa não só sob um ou dois aspectos, mas para o desenvolvimento dela como um todo, e de fazer as pessoas andarem com as próprias pernas, não serem dependentes do Estado ou de qualquer outra empresa. O que me motiva é essa experiência concreta”. Rafael Neves conta como se juntou à AdC e os impactos no seu trabalho. “Cheguei na AdC no início da minha vida acadêmica, ainda na graduação. Hoje estou no doutorado. Primeiro foi o interesse de trabalhar no terceiro setor. Eu me formei em Relações Internacionais, que é uma área que gosto, mas que fica muito nos estudos das grandes questões geopolíticas, economia e política internacional. Eu sentia falta de uma experiência mais concreta com a realidade, e muito interesse em ter um contato com o terceiro setor. Bati na porta da AdC na segunda metade da graduação. Fiz um dia de voluntariado com a Silvia e o Carlos, e, na época, a Matilde e a Yara, uma equipe pequena, mas super atuante. Me convidaram para fazer um estágio. Minha entrada não se deu a partir do grupo católico, que depois eu pude ter contato, principalmente com a filosofia, de que a experiência parte da realidade. Eu aprendi muito, além da parte técnica, acadêmica, de avaliação de impacto, de assessoria de investimento. Foi uma experiência bastante profunda e transformadora para mim na época. Vale dizer que o que mais me fascina até hoje, de ter passado pela AdC -- hoje eu voltei para o terceiro setor, no Instituto de Pesquisa na área da saúde, que olha muito para nível de governança, -- o que até hoje me interessa, é por ser uma organização capaz de ter uma relação com o território e isso é algo muito rico. Se você tem um contato direto com a população, com a realidade, não é a questão de não depender do Estado, mas como a sociedade civil faz com que as políticas públicas cheguem a determinadas populações, sendo que a sociedade civil organizada é intermediadora, e isso me interessou muito. Quando a AdC fazia o meio de campo com o Banco do Povo Paulista, com o microcrédito, foi uma experiência única. Hoje a AdC, pelo que vejo de organizações do ecossistema do terceiro setor, é uma das poucas que ainda tem essa relação direta com a população, com o território, e eu acho que isso foi muito marcante para a minha experiência junto à associação”. Giacomo Villa conta como se juntou à AdC. “Conheci através de dois amigos, um deles, Francesco Babbi, já tinha trabalhado na AdC. Eu tinha um interesse específico no mestrado na Itália, como estudante de economia, sobre o microcrédito, e quando soube do projeto se abriu a possibilidade de fazer uma pesquisa sobre esse mercado no Brasil. Depois, vendo o impacto da educação e capacitação, como fator crítico de sucesso dos programas de microcrédito, comparando a Caixa Econômica Federal, o Banco do Povo e o Banco Santander. No começo, foi desafiante aprender o português, e a forma como a Silvia me desafiava, que é também parte do método da formação das pessoas na AdC e com os empreendedores. Isso me motivou desde o início. Muitos empreendedores começavam um negócio sem de fato ter ferramentas práticas ou teóricas, sobre educação financeira.” conta Giacomo. No início, Silvia não assumiu a presidência da AdC por questões de visto de permanência no Brasil. “Quando criamos a OSCIP, meu vínculo era com a Limitada e entrei na presidência só a partir de 2017. Em 2015, quando criamos a OSCIP, não era presidente e nem fazia parte do corpo diretivo. O que me impressiona desses dez anos são as pessoas que sempre estiveram presentes, e com as quais tenho uma gratidão imensa, porque nunca teria conseguido construir tudo isso sem elas. A relação com elas é uma relação de pessoas que têm um olhar, que parte do mesmo ponto. Sempre foi uma ajuda muito grande na construção da AdC e uma companhia real”, explica Silvia. A transformação da AdC em OSCIP representou muito mais do que uma mudança jurídica. Esse período consolidou uma forma de atuar baseada na centralidade da pessoa, na governança, no fortalecimento institucional e na construção de relações de confiança. Ao ampliar sua capacidade de articulação e estruturar sua metodologia, a organização deu um passo decisivo para unir profissionalização e propósito, preparando o caminho para novas parcerias, estratégias de sustentabilidade e um impacto cada vez mais consistente junto aos microempreendedores.
- Raízes que Constroem: 15 anos da Aventura - Consolidação e Aprendizados
Seguimos com a terceira edição da série Memória AdC, na qual relembramos as origens da organização (confira a parte um e a parte dois). Felipe Ribeiro e Silvia Caironi detalham as mudanças de modelo, desafios com financiadores, escolha da marca e as lições aprendidas. Felipe lembra de uma das histórias curiosas do início da AdC, quando a família Abbondio veio ao Brasil. “A Família Abbondio, da Umano Progresso, que financiava a AdC marcou uma viagem ao Brasil para conhecer as pessoas, a obra e os territórios. No primeiro contato com São Paulo, por exemplo, perguntaram como seria o deslocamento da família: alugariam um helicóptero? Os recursos disponíveis teriam permitido isso, mas Silvia negociava tudo com muito critério, nos mínimos detalhes, e era muito ‘mão de vaca’. Sugeri o aluguel de uma van, mas, mesmo assim, ela não aceitou. Decidimos por uma Kombi, da VW, que parava no hotel chique próximo à Avenida Paulista onde a família estava hospedada, e era olhada com desconfiança pelos seguranças do hotel. Mas no final, a família acabou gostando muito, pois os transportava para os velhos tempos de carros dos anos 60”, completa Felipe. Silvia destaca os maiores desafios com os quais teve que lidar: “No início não éramos ninguém. Tínhamos ideias e uma alta capacidade de partir da realidade e um método, mas não éramos ninguém. Era uma organização que começava a caminhar, e a definir quem é. Ainda estávamos entendendo como nos relacionar com o entorno. A única coisa que estava clara era o relacionamento com os empreendedores. Mas, no contexto, estava tudo por descobrir. Tudo mesmo. Um dos maiores desafios foi a relação da fundação italiana Umano Progresso com a ATST. O líder da fundação, Angelo Abbondio sempre trabalhou com finanças e foi pioneiro em várias frentes financeiras na Itália. Quando decidimos apoiar os microempreendedores, mas não atuar com microcrédito, tivemos que convencê-lo sobre essa mudança de caminho e da importância do seu apoio. Uma das dificuldades foi fazer com que entendessem o valor que gerávamos. Nesse sentido, a avaliação de impacto qualitativa dos cases, que produzíamos todos os meses sobre a transformação da vida de um empreendedor ou empreendedora, ajudaram muito a aproximá-los da realidade que, para eles, estava longe. Outro obstáculo para sua permanência no Brasil foi a obtenção do visto. “Quando cheguei do Peru para trabalhar aqui em 2011, meu visto foi negado duas vezes, porque a ATST não tinha os requisitos para entrar com o pedido de um visto como voluntária. Tínhamos o dinheiro que chegaria da Itália, e eu não tinha o visto. Pensamos em fazer um visto de investimento que também foi difícil, os bancos desapareciam, porque desconfiavam da fundação italiana. Havia um debate público na época, quando muitas ONGs brasileiras estavam sob suspeita de desvios em novembro de 2011. Com a ajuda de advogados conseguimos a parte burocrática do visto e a abertura da conta jurídica. Ajudou muito a amizade do Abbondio com o presidente do Santander na Itália para abrir uma conta jurídica. Isso exemplifica a aventura, um trabalho sempre cheio de desafios. Os de hoje até parecem menores, comparados com os iniciais. Conseguimos a conta e o visto em 20 dias e recebemos o investimento para a AdC que começou como uma companhia limitada até abril de 2017. Entendemos que pelas operações que realizávamos no contexto do terceiro setor, fazia mais sentido ser uma OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público), que foi reconhecida em pouquíssimo tempo. A partir daí passamos a fazer captação de recursos, porque o investimento da fundação iria até 2019”. Segundo Silvia, durante todos esses anos o trabalho não mudou, mas sim a percepção do mercado sobre a AdC. “A operação se tornou mais efetiva. Quando conseguimos sair de uma empresa limitada e virar uma OSCIP a operação ficou mais redonda. A realidade é muito mais potente do que aquilo que temos na cabeça. Cito Shakespeare: ‘Há mais coisas no céu e na terra do que na nossa filosofia’. Até nos momentos mais difíceis, a realidade indicava qual era o caminho. Penso que não se pode desistir quando não se sabe aonde ir. Sempre tive muitos amigos que me ajudaram em todo esse processo e até nos momentos mais difíceis, nunca me senti sozinha, sempre sabia a quem recorrer. Isso ajuda demais, porque não é aquilo que você tem na cabeça, mas o que antevê, não é uma trilha, mas uma rodovia”. Silvia admite que um dos seus talentos para agregar pessoas de instituições de pesquisa e universidades é sua facilidade de relacionamento. “Está no meu DNA. Em uma viagem ao Marrocos com minha família, quando tinha 16 anos, mesmo sem falar a língua, em poucos dias, fiz muitas amizades e até joguei xadrez em uma praça famosa de Marrakesh, com as pessoas de lá. Tenho uma abertura para construir, uma empatia com a realidade, com as pessoas. Com o tempo, aprendi a entender como me relacionar com as pessoas, tive muitas oportunidades na vida, morei em muitos países e tenho uma rede de relacionamentos que facilitaram muita coisa. Você tem que aprender a se relacionar um pouco com todo mundo e com as pessoas mais humildes. Quando eu trabalhava no Peru, na presidência do Conselho de Ministros, eu circulava por bairros onde ninguém ia. Fui educada com a ideia de que o valor de uma pessoa não depende do cargo que tem, não depende se é rico ou pobre. Uma pessoa vale, cada um tem algo interessante e é necessário descobrir isso. A coragem e o atrevimento nascem da certeza de que eu não estou fazendo essa coisa para mim, mas para ajudar outras pessoas, e isso dá muita liberdade. Tem que acreditar, ter brilho nos olhos, senão você não convence ninguém. Então, é um processo racional, empático e de desprendimento, de liberdade mesmo. Também está no meu temperamento a facilidade de falar com as pessoas, de conversar. Os momentos difíceis servem para dar um passo a mais na vida, ir até o limite e ainda dar um passo a mais. Acho que isso faz parte de como fui criada e da minha fé”, completa Silvia O Felipe Ribeiro fez a primeira capacitação para os empreendedores em abril de 2013. Em 2016 e 2017 começaram a montar o site da AdC onde foi descrita sua missão, valores e o estatuto. Segundo Silvia, a missão - apoiar os empreendedores - sempre foi clara, mas não estava formalizada. “As coisas ficaram mais formalizadas a partir de abril de 2018 quando escrevi os sete pontos do método. Não pensei na teoria, mas nos pontos que nos ajudaram a entrar na realidade, a fazer aquilo que fizemos nesses anos. Foi fácil: era só observar aquilo que tinha acontecido”, conta Silvia. A partir dessa trajetória, Silvia resume os principais aprendizados. Um deles é a importância do cuidado com os recursos financeiros. A lição veio, em parte, da convivência com Angelo Abbondio, da Fundação Umano Progresso. Durante os oito meses em que trabalhou ao lado do financiador italiano, praticamente compartilhando a mesma escrivaninha, ela pôde observar de perto sua relação com o dinheiro. “Eu me lembro que, uma vez, eu e a Matilde mandamos um relatório e ele estranhou haver uma diferença de um real”, conta Silvia. A atenção ao detalhe, mesmo diante de valores mínimos a impressionou. Para Silvia, o dinheiro tem um valor que vai além do seu montante. “Quem nunca teve que captar um real sequer não consegue entender o valor de cada recurso. Receber um salário ou um faturamento ao fim do mês é relativamente simples; o verdadeiro desafio está em captar. No início da AdC havia muitos recursos disponíveis, mas o cuidado permanente com cada centavo foi o que permitiu construir um futuro sólido. É necessário ser prudente com os recursos que se tem e não apenas o recurso material”, resume Silvia. Sobre as lições desse período, Felipe recorda que, no início, tudo era improvisado. “No começo, existiam três partes com objetivos distintos: um investidor interessado em testar o microcrédito na América do Sul, uma universidade com sua agenda acadêmica e uma associação de moradia, que não tinha experiência com microcrédito e tampouco com microempreendedorismo. Quando essas três partes se juntaram, logo surgiu um curto-circuito. O que fez a obra sair do papel, foi justamente essa combinação improvável de forças — e a capacidade de Silvia de manter tudo coeso e em movimento”, conclui Felipe. Outro traço marcante desse período foi a capacidade da AdC de mudar de caminho e aproveitar os recursos disponíveis sem perder o foco da missão principal. Quando o microcrédito mostrou não ter a tração esperada, a organização soube adaptá-lo ou substituí-lo por soluções mais adequadas. O mesmo ocorreu com o Sebrae: ao invés de replicar o que a instituição já fazia, a AdC passou a trazê-la como parceira quando ela podia agregar qualidade ao trabalho. “A capacidade de mudar de caminho e de perceber que a solução imaginável pode não ser a única — isso foi central”, resume Felipe. Para Silvia, razão e sentimento não são caminhos opostos — estão juntos, e é preciso usar os dois. A solução, sempre, é buscar outras pessoas para ajudar a pensar. Uma das coisas mais bonitas desse caminho foi justamente o tipo de amizade que gerou. “Eu e o Felipe somos amigos independentemente da AdC — por meio de tudo aquilo que construímos juntos. Eu e o Adriano também. Essa é a coisa bonita da vida, um caminho que, mesmo nos momentos mais difíceis, nunca foi trilhado sozinha”. A consolidação da AdC mostra que a força de uma obra não está em nunca enfrentar impasses, mas em permanecer fiel à realidade mesmo quando ela exige mudanças difíceis. A organização amadureceu sem perder o núcleo de sua missão: apoiar empreendedores de forma concreta, humana e responsável. A trajetória revela também que a AdC se consolidou graças à capacidade de Silvia de construir relações, pedir ajuda, tomar decisões com razão e afeto, e manter unido um conjunto improvável de pessoas e instituições em torno da construção de um bem comum. Ao final desse primeiro encontro de memórias, fica evidente que a Aventura de Construir nasceu e cresceu como uma experiência compartilhada de confiança, prudência, adaptação e amizade — uma obra que aprendeu a seguir a realidade para continuar construindo futuro.
- Raízes que Constroem: 15 anos da Aventura - Construção e Desafios Operacionais
Nesta segunda parte da Memória da Aventura de Construir, Silvia Caironi, Felipe Ribeiro e o consultor italiano Adriano Gaved contam sobre os primeiros desafios operacionais e com os financiadores, as pesquisas de campo e a evolução da organização. Confira a primeira parte no link. O ano de 2012 foi dedicado a iniciar o escritório, aplicar a pesquisa e estruturar os resultados. Em 2013, começou-se a oferecer microcrédito e foi firmada uma parceria com o Sebrae para capacitar empreendedores, aproveitando o espaço dos Centros Comunitários da Associação dos Trabalhadores Sem Terra (ATST) com bastante procura pelos treinamentos que duraram seis meses. Após esse período, os microempreendedores avaliaram que a metodologia do Sebrae era “muito engessada”. “Entendemos que nós é que tínhamos de oferecer as capacitações. Em abril de 2013 chegou uma nova funcionária à iniciativa, Matilde Silva para cuidar da parte administrativa, atendimento aos interessados pelo microcrédito e assessoria. No início fizemos um grande trabalho de busca de parcerias, além do Sebrae, a partir de uma articulação cuidadosa e difícil, porque a organização ainda não tinha nome nem tamanho, só o público. Um dos principais ativos e que chamou muito a atenção dos parceiros foi a sistematização dos resultados das pesquisas que detalhavam muito bem o perfil do público. Eu me lembro que fomos ao Banco do Brasil, que é uma organização que tem uma imensa capilaridade e muito acesso à pesquisa de mercado e de governos, e eles ficaram impressionados com as informações da AdC e pela pesquisa aprofundada com uma pequena população. Isso acabou sendo um ativo que ajudou na mobilização dos recursos externos”, ressalta Silvia. Todos os consultores que passaram pela AdC, mesmo aquelas que ficaram pouco, ajudaram no seu crescimento. Quem pode falar um pouco sobre isso é o italiano Adriano Gaved, engenheiro e hoje consultor da maisQI que se juntou à organização em setembro de 2013. Formado em engenharia eletrônica, com experiência em análises quantitativas e estatística, é especializado em gestão de projetos, equipes e gerenciamento empresarial. Adriano conta um pouco de sua passagem pela AdC: “Sou italiano, mas também cidadão brasileiro e cheguei ao Brasil para ser o chefe de uma empresa do Grupo Bandeirantes de Comunicação (a TV Band), parceira da empresa italiana onde trabalhava, fiquei alguns anos e depois me tornei consultor de uma empresa na área da Petrobrás, que naqueles anos - entre 2012 e 2014 - passou por uma grande crise. Nessa época eu já conhecia a Silvia por meio de amigos comuns, e ela me pediu para ajudar na primeira fase da AdC. Naquele tempo eu morava no Rio. Em poucas semanas fui à São Paulo e comecei a fazer capacitações e assessorias. Uma das minhas atribuições era definir metodologias: para avaliar o impacto da AdC, ou fazer uma avaliação rápida do potencial do empreendedor. Foi uma das melhores coisas que fiz na vida. Aprendi muitas coisas nessa interação pelo fato da Silvia, no mundo do terceiro setor, ter uma prática lógica, correta e coerente e ficando na ponta com as pessoas que precisam, querendo ajudar de verdade, e isso é muito raro. Quando entrei, a AdC oferecia microcrédito, e logo percebemos que não era uma coisa que tinha tração, ou seja, as pessoas não precisavam muito desse tipo de serviço. Outra coisa que me surpreendeu positivamente foi a qualidade da pesquisa inicial feita com os empreendedores. Em uma situação como essa, fazer um investimento de tempo e dinheiro em uma pesquisa daquele tipo, para entender exatamente quais eram as necessidades do público-alvo e a seriedade de querer resolver efetivamente necessidades das pessoas, foi algo que eu só vi na AdC ao longo da minha carreira. Eu aprendi muito profissionalmente trabalhando na AdC: lembro que eu chegava nos empreendedores como consultor de empresas, pensando em fazer o planejamento estratégico dos empreendimentos, ou seja, definir missão, visão, valores. E quando eu conversava com eles, com meu português quebrado, e com a minha cabeça de gringo, essas eram as minhas referências. Então entendi que não fazia sentido para eles fazerem o planejamento estratégico, porque partiam de diferentes premissas. Toda a teoria sobre o conceito de planejamento estratégico é uma ferramenta de comunicação interna. Entendi que um microempreendedor, dono do próprio negócio, não precisa comunicar sua missão para si mesmo, pois sabe o que quer alcançar e vai atrás disso. Entendi mais o que é o planejamento estratégico falando com os microempreendedores do bairro Sol Nascente do que aplicando e estudando isso nas grandes empresas. Outra surpresa foi como eles sabiam precificar. Existem teorias, cruzamento de dados, curvas e infográficos. Falando com eles se entende de verdade o que significa definir o preço. Me senti honrado de ajudar esses microempreendedores. Não tem coisa mais útil no mundo que ajudar uma pessoa a tocar um negócio, ter uma responsabilidade, tentar fazer algo de bom para si e para a sua família. Isso para mim foi um presente, uma grande honra. E eu agradeço a Sílvia por me envolver nessa aventura. Literalmente”, completa Adriano. E ele continua: “Uma das coisas únicas da AdC é, por um lado, a atenção às situações concretas e necessidades reais, e por outro, a valorização da teoria. Ou seja, a avaliação do impacto se fala há alguns anos, nós começamos isso há onze anos, em 2014, 2015, onze anos atrás. Essa é uma outra atitude da Sílvia que faz a diferença. E eu entendi que não tem coisa mais prática que uma boa teoria. Essa atenção à realidade sem imaginá-la, e a compreensão dos fenômenos, até teóricos, só vi na AdC. Daí entendemos como a AdC consegue criar tantos relacionamentos sólidos com centros de pesquisa e universidades”, destaca Adriano. Silvia ressalta que não havia uma ideia pré-concebida sobre como seria a obra. “Começamos com o tema do microcrédito, depois, seguindo a realidade, seguimos por outro caminho, tanto na missão quanto na organização. A missão era o microcrédito. Depois, com tudo que fomos vendo, virou outra coisa. Entre 2013 e 2014, descobri que existia uma organização que se chama Aliança Empreendedora que faz um trabalho similar à AdC, e pensei: então não estou louca. Para mim nunca foi um projeto, mas entender como responder à realidade e às necessidades dessas pessoas da forma melhor e mais adequada para elas. Se a maioria dos bancos oferecem microcrédito subsidiado, não precisávamos fazer. Se os empreendedores têm dificuldades em acessar o Sebrae, vamos levar o Sebrae até eles. Sempre foi uma questão de seguir a realidade que permitiu à AdC ser aquilo que é hoje. Do ponto de vista da organização, o nome e o logo não foram pensados a priori. Para que o recurso da Itália pudesse chegar era preciso ter um CNPJ e um nome. E sendo que a palavra aventura, no Brasil, significa algo que não se sabe onde vai dar, me veio a imagem de uma aventura de construir juntos. Fui inspirada pelo Padre Carron, ex-responsável do movimento Comunhão e Libertação, que veio ao Brasil nessa época e me disse: ‘Silvia, que essa obra seja uma aventura para a sua vida’. Sendo que um microempreendedor tem que crescer, e esse processo de crescimento é a aventura da sua vida: quanto mais ele cresce pessoalmente, mais cresce profissionalmente e mais perguntas vão nascer, é realmente uma aventura a construção de toda sua pessoa. É um construir da pessoa, do empreendimento, da família, da comunidade. Consultei o Marcos Zerbini e a Cleuza Ramos, da ATST, que também gostaram da ideia, e foi assim que o nome surgiu em maio de 2011. Em agosto de 2011, fui a Washington conversar com o Álvaro Manoel, do Banco Mundial, que sugeriu fazer uma apresentação da AdC para pessoas especializadas em microempreendedorismo. Ele levantou dúvidas sobre o nome: aventura é uma palavra que sugere risco. Mesmo assim, decidimos manter a marca e o logo, com quadradinhos que vão aumentando, sugerindo o crescimento e fortalecimento do negócio. Esse desenho simboliza a tentativa de dar solidez à ideia: não era uma aventura sem futuro, ao contrário”. Dentro dessa trajetória, Silvia entendeu melhor sobre a importância de sua permanência no Brasil. “Percebi que estava construindo algo que realmente respondia a uma necessidade, mas isso não foi o mais importante para querer ficar, mesmo nos momentos difíceis, e tiveram muitos. Percebi que aquilo era bom para a minha vida e me permitiu crescer mais como pessoa, dentro dos momentos bons e, sobretudo, dos difíceis. E nesses 15 anos, foi algo que foi muito bom, pois, para mim, construir tem valor. Quem cria é a própria criatura. A coisa melhor que um pai pode fazer para um filho é deixá-lo caminhar, correr, crescer. E depois, se a construção foi boa, vamos ver no futuro, não só nesses primeiros 15 anos.” A AdC se formou a partir da coragem de testar caminhos, reconhecer limites e mudar de direção quando a realidade assim exigia. As pesquisas de campo, as parcerias, as capacitações e os primeiros desafios operacionais mostraram que a contribuição mais valiosa da AdC não estava apenas no microcrédito, mas na capacidade de olhar para cada empreendedor de forma concreta, oferecendo apoio, método e presença. Ao mesmo tempo, o surgimento do nome Aventura de Construir sintetizou a identidade da obra: uma construção compartilhada, feita de crescimento pessoal, fortalecimento dos negócios, vínculos comunitários e aprendizado contínuo. Assim, a AdC consolidou seus primeiros passos como uma iniciativa aberta à realidade, sustentada pela seriedade do trabalho, pela força dos relacionamentos e pela convicção de que construir é, antes de tudo, acompanhar pessoas em seu caminho de desenvolvimento.
- Raízes que Constroem: 15 anos da Aventura - Origem e fundação
Como começou a Aventura de Construir (AdC)? Como foi sua evolução ao longo dos anos e por quais transformações passou a partir do projeto inicial para atender seu público-alvo? Essas indagações ficam mais provocadoras tanto para aqueles que participaram de sua fundação quanto para os que a conhecem agora. Com a chegada dos 15 anos da organização, surgiu a ideia de deixar um registro escrito desta história que se confunde com a trajetória da própria fundadora, a economista Silvia Caironi, que chegou ao Brasil para tocar uma obra de oferta de microcrédito para empreendedores da periferia a partir do financiamento da fundação italiana Umano Progresso, de Milão, liderada por Angelo Abbondio (1941-2022). Silvia, conta um pouco desse começo, quando a AdC nem tinha este nome: “Um amigo, Mario Molteni, que é o fundador da ALTIS e da E4Impact, respectivamente escola de negócios e organização de impacto ponte entre a Universidade Católica de Milão e universidades africanas, me falou que uma fundação queria começar um projeto de financiamento para microempreendedores nas periferias de São Paulo, em particular na periferia da zona oeste da capital paulista, em parceria com a Associação dos Trabalhadores Sem Terra (ATST) de São Paulo, liderada por Marcos Zerbini (ex-deputado estadual de São Paulo) e sua esposa Cleuza Ramos”. Nessa época, Silvia era administradora da Cáritas no Peru, que tinha um dos três maiores programas de microcrédito daquele país em 2010. Mario Molteni, conhecendo esta experiência, a convidou para liderar um programa similar no Brasil ligado à ATST. A princípio, Silvia não se interessou. Mas por amizade - e insistência de Mario Molteni - concordou em escrever um projeto. “Conversando com uma amiga economista, comecei a me empolgar com a iniciativa e com o tema. Escrevi o projeto, mandei para o Mario, e ele passou para o Abbondio da Fundação Umano Progresso”, diz Silvia. Em seguida, ela foi para a Itália de férias e se encontrou com Angelo Abbondio, head da fundação, que se propôs a financiar microcrédito no Brasil, contanto que Silvia liderasse a obra. Ela ainda estava na Cáritas, no Peru, onde ficou até novembro de 2010. Encerrado este ciclo, chegou ao Brasil em fevereiro de 2011. “Vim duas vezes antes para verificar se as condições para começar esse trabalho eram viáveis”, detalha Silvia. Aqui chegando, começou a pesquisa para a montagem de uma organização de microcrédito, na periferia da zona oeste da capital paulista, alcançando territórios onde a ATST atuava como Morro Doce, Sol Nascente, Pirituba, Turística e Vila Aurora. Neste início, Silvia agendou reuniões em várias instituições financeiras que trabalhavam com microcrédito, como o Banco do Nordeste e o Santander, onde ficou amiga de um diretor da área. Com seis meses de Brasil, e ainda estudando como abrir juridicamente a organização de microcrédito, o Governo Federal – época da presidente Dilma Roussef - lançou um programa subsidiado. Antes de passar um período na Itália – onde ficou oito meses à espera do visto para morar no Brasil – Silvia passou por Washington (EUA) para consultar pessoas especializadas em microcrédito. Felipe Mahlmeister Ribeiro, cientista social, conta como se juntou à organização que seria a AdC em 2011, quando foi criado o CNPJ da organização. “Fiquei sabendo que a Silvia estava vindo para o Brasil, e estava interessado em começar um trabalho com essa perspectiva. Naqueles anos, a economia solidária e o microcrédito estavam muito fortes, existiam muitas iniciativas no mundo inteiro, muita pesquisa acadêmica, livros sendo publicados, e eu tinha interesse em trabalhar nessa área. Conheci a Silvia, e ela me falou do trabalho que se adequou ao que eu buscava profissionalmente. Em um primeiro momento, quando ela ainda estava montando a organização juridicamente, surgiu a possibilidade de parceria com o BAMIC (Banco Mineiro de Microcrédito), OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) de Belo Horizonte (MG) que oferecia essa linha de financiamento para a região. Fizemos um acordo com eles e em 2012 fui para Belo Horizonte e fiquei alguns meses no BAMIC conhecendo a operação de microcrédito ligada ao CEDUC (Centro Educativo Virgilio Resi), para depois continuar o trabalho análogo junto com a Silvia em São Paulo. Nesse período conhecemos o BAMIC que tinha passado por muitas mudanças de gestão e precisavam organizar melhor os números, e tivemos um papel importante nesse processo”, diz Felipe. Ele voltou à São Paulo e começou a ajudar nas tarefas do dia a dia. O BAMIC estava ligado à duas organizações, a CDM e ao Centro de Biodiversidade, dentro do Ceduc Virgílio Resi, centro de formação profissional para jovens aprendizes. Após o trabalho do Felipe em BH foi possível ter mais informações sobre a difícil sustentabilidade financeira do microcrédito, pois o BAMIC operava com déficit. “É um desafio do ponto de vista da sustentabilidade financeira, porque cada empréstimo gera uma receita minúscula para o banco. Então, se você não tem um controle muito rigoroso dos números, começa a operar no prejuízo sem perceber. Muitas vezes é um pequeno prejuízo, mas se isso acontece mensalmente leva a organização à falência. E descobrimos que estavam nesse ponto”, conta Silvia. Em São Paulo, Felipe Ribeiro e o economista Felipe Mecchi, que se juntou à organização na época, começaram a pesquisa de campo com os empreendedores dos bairros periféricos. Foram vários meses entrevistando os donos de comércios, com a meta de quatro interações por dia. “Meta difícil de ser alcançada, dado que o formulário tinha 200 perguntas. Eram entrevistas muito longas. Em seguida começamos a fazer a ponte com o pessoal do microcrédito do Banco do Povo Paulista, que na época se mostrou a melhor instituição financeira para trabalhar em parceria. Eles tinham a disponibilidade de alocar um agente de microcrédito de carro alguns dias por semana para ficar rodando conosco nos bairros. As entrevistas com os empreendedores, que duravam quase duas horas, continuaram e ajudavam a identificar potenciais clientes. Entrávamos nos comércios para conhecer os donos e muitos não queriam parar o trabalho para responder, pois as entrevistas ocorriam durante o horário comercial. Com isso, caracterizamos o público-alvo e começamos a identificar quem eram os bancos que tinham interesse em trabalhar conosco: vários apareceram. O Banco do Povo foi escolhido pois tinha juro mais baixo e metodologia mais sólida, desenvolvida pelo bengali Muhammad Yunus, que criou o conceito de microcrédito e microfinanças, desenvolvido nos últimos 30 anos em Bangladesh”, relembra Felipe. Ele detalhou um pouco mais sobre a metodologia das entrevistas: “Para não atrapalhar seus negócios, eu pedia ao empreendedor manter sua rotina de vendas e enquanto ele trabalhava eu continuava ali, esperando por sua disponibilidade. Também deixava claro que, se eu perguntasse alguma coisa que achasse inconveniente, especialmente em relação ao dinheiro, não precisava responder. Mas, no geral, foi possível levantar muitas informações e eles começaram a nos conhecer, pois andávamos pelo bairro. A gente batia na porta e eles pediam para voltar na semana que vem, mas já nos conheciam, nos viam pelo bairro, almoçando em alguns bares”. Entre as memórias mais curiosas da fase de pesquisa de campo, Felipe recorda o episódio em que, no afã de cumprir a meta diária, acabou entrevistando um comerciante cujo negócio era completamente ilegal — algo que só percebeu no decorrer da conversa. “O homem vendia DVDs de videogame falsificados. Disse a ele para responder só as perguntas que podia e as outras deixaria em branco”, conta Felipe. Para ele, a situação era análoga à de uma cabeleireira que vendia produtos sem nota fiscal: em ambos os casos, havia a possibilidade de um caminho diferente. Ainda assim, ao encerrar a entrevista, concluiu que aquele não era o perfil de público-alvo da AdC. Tínhamos uma baixa expectativa no número de entrevistas. A meta era quatro por dia, mas em alguns conseguimos no máximo duas, ou uma. Tinha dia que a pessoa passava mal por causa do calor. Não fazíamos muitas visitas porque cada uma era bem profunda nos bairros de atuação da ATST, associação que começou no final dos anos 70 para trabalhar com moradia e que já beneficiou mais de 40 mil famílias da periferia da zona oeste. Com a compra do lote, entra o processo de urbanização e de regularização com a prefeitura. Nós começamos lá e o apoio da fundação italiana era para fazer algo com eles. E descobrimos que a vida desses territórios é muito dinâmica. Muita gente se beneficiou dos lotes, mas não sabia nada sobre a ATST. São milhares de casas que foram construídas pela associação, tudo documentado e inventariado. As vezes só o avô e a avó ou o pai sabiam que a origem do terreno da casa ou do ponto comercial que tinha a ATST como origem. Então vimos que a história do bairro ficou registrada apenas para alguns. Além do Banco do Povo, trabalhamos um pouco com o Sebrae. A ATST nos auxiliou com os centros comunitários, lugares em cada bairro para as reuniões e palestras. Muito da energia da AdC vem da facilidade com que a Silvia consolida relacionamentos com as pessoas, o famoso “networking”, aponta Felipe. Ao revisitar a origem da Aventura de Construir, percebe-se que a AdC nasceu de uma escuta atenta da realidade, de relações de confiança e de uma disposição concreta para responder aos desafios encontrados nas periferias de São Paulo. O projeto inicial de microcrédito foi se transformando à medida que a equipe conhecia de perto os empreendedores, os bairros, suas histórias e necessidades. Mais do que oferecer financiamento, a organização começou a construir vínculos, compreender trajetórias e reconhecer a força de territórios marcados por dinamismo, trabalho e criatividade. Assim, os primeiros anos da AdC revelam não apenas a fundação de uma instituição, mas o início de uma caminhada coletiva baseada em presença, aprendizagem e compromisso com o desenvolvimento humano e econômico das comunidades atendidas.
- Seguimos avançando: a CDM e a Aventura de Construir agora constroem juntas uma nova história
Entenda a união CDM. Projetos Sociais de Alto Impacto e a Aventura de Construir Temos uma novidade importante para compartilhar: a CDM e a Aventura de Construir (AdC) estão unindo suas trajetórias em um novo capítulo de suas histórias. A decisão foi construída ao longo de um processo de escuta, diálogo e aproximação, marcado pela confiança e pela convergência de valores, além do conhecimento mútuo entre as organizações. Mais do que uma mudança de estrutura, é uma escolha pela continuidade: preservar o que foi construído e criar novas possibilidades de impacto. A CDM, com 40 anos de atuação em projetos sociais de alto impacto, reúne experiência em gestão social, desenvolvimento humano e territorial, tecnologias socioambientais e articulação de redes, empresas e voluntários. A Aventura de Construir chega a este novo momento após 15 anos dedicados ao acompanhamento e desenvolvimento de microempreendedores das periferias do Brasil. Ao longo dessa trajetória, construiu uma metodologia baseada na proximidade com os territórios, no acompanhamento individual, na formação humana e técnica e no fortalecimento do protagonismo. Ambas, com metodologias próprias baseadas na escuta cuidadosa e proximidade com cada pessoa. É nessa complementaridade que está uma das grandes potências dessa união: a experiência da Aventura de Construir em empreendedorismo periférico e inclusão produtiva encontra a capacidade de gestão, articulação e atuação territorial da CDM. Juntas, ampliam as possibilidades de desenvolver projetos, integrar conhecimentos e alcançar novos públicos e territórios. Esse processo tem origem na necessidade de Silvia Caironi, fundadora e presidente da Aventura de Construir, de retornar à Itália e na busca por um caminho que garantisse a continuidade do trabalho desenvolvido pela organização. Nesse contexto, a fusão por incorporação foi construída como uma solução de continuidade, tendo como marco o dia 30 de setembro de 2026. A partir dessa data, Silvia Caironi deixará a presidência da Aventura de Construir, já tendo um novo presidente nomeado, dando continuidade a fusão com a CDM. Caique Caetano, atual Gerente de Inclusão Produtiva da Aventura de Construir, assumirá a responsabilidade pela sede de São Paulo. A efetivação da incorporação das organizações, CDM e Aventura de Construir, consolida o compromisso de colocar e manter as pessoas no centro, reconhecer seu potencial e construir caminhos para transformar realidades. Uma nova estrutura. Novas possibilidades. E a mesma convicção na capacidade de que cada pessoa é capaz de transformar sua realidade. Seguimos juntos, integrados, construindo essa nova história. 9 de setembro de 2026. Silvia Caironi e Ernane Souza











