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O circuito da cooperação



No Blog AdC de hoje, a Aventura de Construir traz uma conversa sobre redes de cooperação dentro do território do Jardim Lapena, principalmente entre os empreendedores que participam do Projeto Empreendendo com Causa, uma parceria entre a Fundação Tide Setubal e a AdC. Na voz, Everton da Silva Oliveira, Coordenador Geral da CicloLog, um empreendimento de impacto social que tem em sua fundação a concepção de coletividade!


Confira abaixo a conversa na íntegra:

Por Livia Picchi


Aventura de Construir: Everton, me conte um pouco sobre você, sua trajetória...


Boa tarde, meu nome é Everton da Silva, sou coordenador geral da CicloLog Leste, minha trajetória não é muito diferente dos jovens pretos periféricos. Sou nascido aqui, criado no território do Jardim Lapena, extremo Leste de São Paulo, passei por diversas dificuldades enquanto pessoa, falta de estrutura familiar, e isso foi uma alavanca para querer uma transformação social, não só individual, mas para as pessoas que estão à minha volta.


Então minha trajetória vem muito desse trabalho de coletivo, de luta, de desenvolvimento de projetos que visem o bem comum. Eu já trabalhei muito como educador ambiental que é minha área, sou educador socioambiental, voltado à pauta do racismo ambiental, como combater o racismo ambiental na periferia. Trabalho com comunicação livre, já trabalhei com o jornal antimanicomial no RJ em uma ocupação que era dentro de um hospício.


Depois eu fui para Mariana, MG, trabalhar com rádio livre após o crime da Samarco, do rompimento das barragens. Ali a gente foi trabalhar com os moradores que foram atingidos e trazer um pouco de informação não só na cidade, mas para fora dali, sobre o que realmente estava acontecendo. Então minha trajetória vem muito desse rolê de luta.

Sou cofundador do projeto SOMA que fez dez anos esse ano. É um projeto que trabalha com pessoas em situação de rua, e também com jovens periféricos trazendo atividades socioculturais e ambientais para o território. Fui me desenvolvendo nessas questões até ser convidado a trabalhar com a Ciclolog Leste nesse rolê de mobilidade.

O link que tenho para fazer sobre bicicleta é que em Mariana a gente utilizou a bicicleta como meio de transporte para percorrer todas as cidades que foram atingidas pela lama, levando informação. Então a bicicleta era não só mobilidade, mas também autonomia de informação.


AdC: conta para a gente um pouco sobre como nasceu a CicloLog Leste e o trabalho que vocês realizam.

A CicloLog Leste é anterior a mim. Ela nasceu na pandemia através de um questionamento sobre os entregadores de bicicleta e os demais entregadores estavam sobrecarregados de trabalho e tendo que bater de frente com o vírus, além de serem mal remunerados, porque o entregador hoje é muito explorado para poder chegar a um valor X de remuneração.

Nesse momento, o Aro Meiazero que trabalha com mobilidade não só em São Paulo, mas em grande parte do território nacional, trouxe essa discussão do delivery justo, que é uma remuneração adequada aos trabalhadores conforme as horas de trabalho. Assim, através dessa metodologia do Livre Justo, trouxe para o Galpão uma parceria entre a Fundação Tide e o Aro Meiazero, usando o ponto de leitura como um projeto piloto, onde surgiu o Bike Literária. Era um projeto de entrega de livros, durante a pandemia, já que os pontos de leitura haviam fechado, e aqui no território do Lapena existem muitos leitores ativos que queriam continuar tendo acesso à leitura.

Com isso, o projeto foi se desenvolvendo e precisava de um coletivo para tocar o Bike Literária, assim criou-se a CicloLog Leste. Nascemos dessa metodologia do Livre Justo e foi se criando mais coisas, como por exemplo o Bike Som, nosso “Bike Chefe”, que é a divulgação de comércios e instituições locais e de políticas públicas que acontecem no bairro. Então o Bike Som existe para levar informação para onde ela não chega, e assim foi se criando a CicloLog Leste até chegar ao ponto que ela está hoje.


AdC: Legal! Então a ideia de coletividade já está intrínseca à CicloLog Leste. Para você, como é essa percepção da ideia de coletivo, de coletividade e de trabalhar com o outro, principalmente dentro do território que estão inseridos?

Essa pergunta, para mim, vem antes da CicloLog Leste. Como eu já passei por diversos coletivos em diversas regiões - Mariana, Rio de Janeiro, São Paulo - e pela minha história de vida, acredito que se não for o coletivo, quem é da periferia, quem é pobre, não sobrevive.

Então a coletividade é para além de um negócio, é para além de uma remuneração, ela é para a vida, é uma forma de nos manter vivos. Entendemos que a periferia é um ninho de coletividade, o problema que afeta um, afeta todos os outros. Aqui, por exemplo no Lapena, temos problema de enchentes todos os anos, então todo ano é necessário trabalharmos em coletivo para resolver esses problemas.


A coletividade, hoje, trazendo para nosso negócio, para a CicloLog Leste, é uma grande engrenagem que faz a coisa acontecer, pois sem a coletividade não vai acontecer. Se eu não estiver bem coletivamente, não decidir as coisas coletivamente, será decidido de cima para baixo e não será sustentável. Então a coletividade faz parte da sustentabilidade do negócio. Ninguém deve trabalhar menos e ganhar mais, e assim por diante. Quem faz realmente o negócio funcionar é o trabalhador, então tudo precisa ser decidido coletivamente para que todo mundo se fortaleça e fortaleça o que estamos fazendo juntos. As decisões devem ser coletivas, cada um colocando seu ponto de vista para ser a melhor decisão tomada, conforme o respeito ao ponto de vista e experiência de cada um, visando o bem comum, para pensarmos juntos de uma forma melhor!


AdC: Everton, o que você considera nessa lógica de coletividade, vindo dessa experiência que você tem com a CicloLog Leste, o que vocês almejam no sentido de formação de uma rede de cooperação e de serviços compartilhados entre os empreendedores do projeto da AdC, aqui dentro do território?

Da perspectiva da CicloLog Leste, eu entendo que é de extrema importância. Eu entendo que a CicloLog passa por todos os coletivos e todos os negócios, principalmente dentro do projeto. De alguma forma podemos colaborar tanto com a nossa melhora quanto dos negócios que estão dentro do projeto. Isso porque há pessoas que fazem marmitas saudáveis, como no caso da Sulamita, elas precisam de alguém que entregue e a CicloLog faz entregas, há negócios que tem problema de divulgação, a CicloLog também faz divulgação.

Partindo do ponto de todos, de olhar no coletivo e não só pensando na Ciclo nesse caso, existe a possibilidade da gestão de resíduos. Pode ser implementada uma logística reversa dentro disso, podemos lidar com o composto de quem produz alimento, da mesma forma que podemos lidar com a questão de quem trabalha com reciclagem. Por exemplo, o salão de beleza da Marleide recebe produtos, e esses produtos vêm em grandes embalagens, caixas de papelão, e há dentro do projeto quem trabalha com reciclagem de materiais, então podemos fazer essa ponte.

Para além dos negócios que estão no projeto, a periferia em si tem muita riqueza e potencialidade aqui dentro, que passa por diversos setores, por diversos negócios que podem se agregar a esse coletivo da CicloLog, do que estamos fazendo e com essa rede que estamos tentando potencializar dentro do projeto, dentro do nosso trabalho. Então, se conseguirmos criar uma rede geral onde todo mundo consiga colocar seu serviço e usufruir do serviço do próximo, pensando na oferta e na demanda, a gente consegue gerar lucro para todo mundo, a gente consegue gerar benefícios para todos e principalmente para a região, para o território.


Ou seja, conseguimos dar visibilidade para o território nesse sentido. Vão ver que aqui tem muitas pessoas, muitos núcleos, diversos negócios que trabalham em rede e ao trabalhar em rede conseguimos elevar o patamar do nosso próprio negócio. Eu consigo elevar o patamar da CicloLog de acordo com a parceria que tenho com a Marleide, ou que tenho com a Sulamita e vice-versa. Então, trabalhar em rede, trabalhar em coletivo, junção de negócios, faz com que a gente se eleve pensando que podemos trazer uma solução para o outro e potencializar isso!



AdC: Por fim, tem alguma contribuição final que você gostaria de compartilhar com a gente, para falar para o pessoal dos outros projetos, nesse sentido de coletividade, que moram em outra comunidade e bairros e quais os aprendizados que você quer compartilhar.

Dentro dessa questão da coletividade, vamos aprendendo a lidar com as nossas falhas. Se a gente tem uma decisão unitária e não consegue olhar para outros pontos sem fazer a autocrítica, sozinho a gente muitas vezes não consegue apontar isso. Mas quando estamos em coletivo e em rede, os outros conseguem nos mostrar onde estamos falhando, onde precisamos melhorar, ou mostrar nosso potencial, onde nós só precisamos potencializar aquilo que já fazemos bem.

Então, hoje, dentro do território e principalmente com os coletivos que temos aqui, com os negócios que temos aqui e dentro do galpão, conseguimos nos espelhar no outro, compartilhar o que deu certo e o caminho para isso. Compartilhar experiências, somar esforços faz nos desenvolvermos de uma forma muito melhor.


Trabalhar em rede faz com que a gente evolua muito e faz com que a gente faça autocrítica. Faz com que a gente veja e enfrente novos desafios de outra perspectiva, faz com que a gente juntos consigamos potencializar o que já está no território e o que precisa ser melhorado. Cada um com sua visão do território, quando compartilhamos essas visões juntos o quebra cabeça se monta. E é onde a gente consegue trazer o potencial para o indivíduo, para o coletivo e para o território!


AdC: Está ótimo Everton, muito obrigada pela sua participação! Até a próxima!

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