Raízes que Constroem: 15 anos da Aventura - Consolidação e Aprendizados
- 3 de jun.
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Seguimos com a terceira edição da série Memória AdC, na qual relembramos as origens da organização (confira a parte um e a parte dois). Felipe Ribeiro e Silvia Caironi detalham as mudanças de modelo, desafios com financiadores, escolha da marca e as lições aprendidas.
Felipe lembra de uma das histórias curiosas do início da AdC, quando a família Abbondio veio ao Brasil.
“A Família Abbondio, da Umano Progresso, que financiava a AdC marcou uma viagem ao Brasil para conhecer as pessoas, a obra e os territórios. No primeiro contato com São Paulo, por exemplo, perguntaram como seria o deslocamento da família: alugariam um helicóptero? Os recursos disponíveis teriam permitido isso, mas Silvia negociava tudo com muito critério, nos mínimos detalhes, e era muito ‘mão de vaca’. Sugeri o aluguel de uma van, mas, mesmo assim, ela não aceitou. Decidimos por uma Kombi, da VW, que parava no hotel chique próximo à Avenida Paulista onde a família estava hospedada, e era olhada com desconfiança pelos seguranças do hotel. Mas no final, a família acabou gostando muito, pois os transportava para os velhos tempos de carros dos anos 60”, completa Felipe.
Silvia destaca os maiores desafios com os quais teve que lidar:
“No início não éramos ninguém. Tínhamos ideias e uma alta capacidade de partir da realidade e um método, mas não éramos ninguém. Era uma organização que começava a caminhar, e a definir quem é. Ainda estávamos entendendo como nos relacionar com o entorno. A única coisa que estava clara era o relacionamento com os empreendedores. Mas, no contexto, estava tudo por descobrir. Tudo mesmo.
Um dos maiores desafios foi a relação da fundação italiana Umano Progresso com a ATST. O líder da fundação, Angelo Abbondio sempre trabalhou com finanças e foi pioneiro em várias frentes financeiras na Itália. Quando decidimos apoiar os microempreendedores, mas não atuar com microcrédito, tivemos que convencê-lo sobre essa mudança de caminho e da importância do seu apoio. Uma das dificuldades foi fazer com que entendessem o valor que gerávamos. Nesse sentido, a avaliação de impacto qualitativa dos cases, que produzíamos todos os meses sobre a transformação da vida de um empreendedor ou empreendedora, ajudaram muito a aproximá-los da realidade que, para eles, estava longe.
Outro obstáculo para sua permanência no Brasil foi a obtenção do visto.
“Quando cheguei do Peru para trabalhar aqui em 2011, meu visto foi negado duas vezes, porque a ATST não tinha os requisitos para entrar com o pedido de um visto como voluntária. Tínhamos o dinheiro que chegaria da Itália, e eu não tinha o visto. Pensamos em fazer um visto de investimento que também foi difícil, os bancos desapareciam, porque desconfiavam da fundação italiana. Havia um debate público na época, quando muitas ONGs brasileiras estavam sob suspeita de desvios em novembro de 2011.
Com a ajuda de advogados conseguimos a parte burocrática do visto e a abertura da conta jurídica. Ajudou muito a amizade do Abbondio com o presidente do Santander na Itália para abrir uma conta jurídica. Isso exemplifica a aventura, um trabalho sempre cheio de desafios. Os de hoje até parecem menores, comparados com os iniciais.
Conseguimos a conta e o visto em 20 dias e recebemos o investimento para a AdC que começou como uma companhia limitada até abril de 2017. Entendemos que pelas operações que realizávamos no contexto do terceiro setor, fazia mais sentido ser uma OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público), que foi reconhecida em pouquíssimo tempo. A partir daí passamos a fazer captação de recursos, porque o investimento da fundação iria até 2019”.
Segundo Silvia, durante todos esses anos o trabalho não mudou, mas sim a percepção do mercado sobre a AdC.
“A operação se tornou mais efetiva. Quando conseguimos sair de uma empresa limitada e virar uma OSCIP a operação ficou mais redonda. A realidade é muito mais potente do que aquilo que temos na cabeça. Cito Shakespeare: ‘Há mais coisas no céu e na terra do que na nossa filosofia’. Até nos momentos mais difíceis, a realidade indicava qual era o caminho. Penso que não se pode desistir quando não se sabe aonde ir. Sempre tive muitos amigos que me ajudaram em todo esse processo e até nos momentos mais difíceis, nunca me senti sozinha, sempre sabia a quem recorrer. Isso ajuda demais, porque não é aquilo que você tem na cabeça, mas o que antevê, não é uma trilha, mas uma rodovia”.
Silvia admite que um dos seus talentos para agregar pessoas de instituições de pesquisa e universidades é sua facilidade de relacionamento.
“Está no meu DNA. Em uma viagem ao Marrocos com minha família, quando tinha 16 anos, mesmo sem falar a língua, em poucos dias, fiz muitas amizades e até joguei xadrez em uma praça famosa de Marrakesh, com as pessoas de lá. Tenho uma abertura para construir, uma empatia com a realidade, com as pessoas. Com o tempo, aprendi a entender como me relacionar com as pessoas, tive muitas oportunidades na vida, morei em muitos países e tenho uma rede de relacionamentos que facilitaram muita coisa. Você tem que aprender a se relacionar um pouco com todo mundo e com as pessoas mais humildes.
Quando eu trabalhava no Peru, na presidência do Conselho de Ministros, eu circulava por bairros onde ninguém ia. Fui educada com a ideia de que o valor de uma pessoa não depende do cargo que tem, não depende se é rico ou pobre. Uma pessoa vale, cada um tem algo interessante e é necessário descobrir isso. A coragem e o atrevimento nascem da certeza de que eu não estou fazendo essa coisa para mim, mas para ajudar outras pessoas, e isso dá muita liberdade. Tem que acreditar, ter brilho nos olhos, senão você não convence ninguém. Então, é um processo racional, empático e de desprendimento, de liberdade mesmo.
Também está no meu temperamento a facilidade de falar com as pessoas, de conversar. Os momentos difíceis servem para dar um passo a mais na vida, ir até o limite e ainda dar um passo a mais. Acho que isso faz parte de como fui criada e da minha fé”, completa Silvia
O Felipe Ribeiro fez a primeira capacitação para os empreendedores em abril de 2013. Em 2016 e 2017 começaram a montar o site da AdC onde foi descrita sua missão, valores e o estatuto. Segundo Silvia, a missão - apoiar os empreendedores - sempre foi clara, mas não estava formalizada.
“As coisas ficaram mais formalizadas a partir de abril de 2018 quando escrevi os sete pontos do método. Não pensei na teoria, mas nos pontos que nos ajudaram a entrar na realidade, a fazer aquilo que fizemos nesses anos. Foi fácil: era só observar aquilo que tinha acontecido”, conta Silvia.
A partir dessa trajetória, Silvia resume os principais aprendizados. Um deles é a importância do cuidado com os recursos financeiros. A lição veio, em parte, da convivência com Angelo Abbondio, da Fundação Umano Progresso. Durante os oito meses em que trabalhou ao lado do financiador italiano, praticamente compartilhando a mesma escrivaninha, ela pôde observar de perto sua relação com o dinheiro.
“Eu me lembro que, uma vez, eu e a Matilde mandamos um relatório e ele estranhou haver uma diferença de um real”, conta Silvia.
A atenção ao detalhe, mesmo diante de valores mínimos a impressionou. Para Silvia, o dinheiro tem um valor que vai além do seu montante.
“Quem nunca teve que captar um real sequer não consegue entender o valor de cada recurso. Receber um salário ou um faturamento ao fim do mês é relativamente simples; o verdadeiro desafio está em captar. No início da AdC havia muitos recursos disponíveis, mas o cuidado permanente com cada centavo foi o que permitiu construir um futuro sólido. É necessário ser prudente com os recursos que se tem e não apenas o recurso material”, resume Silvia.
Sobre as lições desse período, Felipe recorda que, no início, tudo era improvisado.
“No começo, existiam três partes com objetivos distintos: um investidor interessado em testar o microcrédito na América do Sul, uma universidade com sua agenda acadêmica e uma associação de moradia, que não tinha experiência com microcrédito e tampouco com microempreendedorismo. Quando essas três partes se juntaram, logo surgiu um curto-circuito. O que fez a obra sair do papel, foi justamente essa combinação improvável de forças — e a capacidade de Silvia de manter tudo coeso e em movimento”, conclui Felipe.
Outro traço marcante desse período foi a capacidade da AdC de mudar de caminho e aproveitar os recursos disponíveis sem perder o foco da missão principal. Quando o microcrédito mostrou não ter a tração esperada, a organização soube adaptá-lo ou substituí-lo por soluções mais adequadas. O mesmo ocorreu com o Sebrae: ao invés de replicar o que a instituição já fazia, a AdC passou a trazê-la como parceira quando ela podia agregar qualidade ao trabalho.
“A capacidade de mudar de caminho e de perceber que a solução imaginável pode não ser a única — isso foi central”, resume Felipe.
Para Silvia, razão e sentimento não são caminhos opostos — estão juntos, e é preciso usar os dois. A solução, sempre, é buscar outras pessoas para ajudar a pensar. Uma das coisas mais bonitas desse caminho foi justamente o tipo de amizade que gerou.
“Eu e o Felipe somos amigos independentemente da AdC — por meio de tudo aquilo que construímos juntos. Eu e o Adriano também. Essa é a coisa bonita da vida, um caminho que, mesmo nos momentos mais difíceis, nunca foi trilhado sozinha”.
A consolidação da AdC mostra que a força de uma obra não está em nunca enfrentar impasses, mas em permanecer fiel à realidade mesmo quando ela exige mudanças difíceis. A organização amadureceu sem perder o núcleo de sua missão: apoiar empreendedores de forma concreta, humana e responsável.
A trajetória revela também que a AdC se consolidou graças à capacidade de Silvia de construir relações, pedir ajuda, tomar decisões com razão e afeto, e manter unido um conjunto improvável de pessoas e instituições em torno da construção de um bem comum.
Ao final desse primeiro encontro de memórias, fica evidente que a Aventura de Construir nasceu e cresceu como uma experiência compartilhada de confiança, prudência, adaptação e amizade — uma obra que aprendeu a seguir a realidade para continuar construindo futuro.