Raízes que Constroem: 15 anos da Aventura - Construção e Desafios Operacionais
- 28 de mai.
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Nesta segunda parte da Memória da Aventura de Construir, Silvia Caironi, Felipe Ribeiro e o consultor italiano Adriano Gaved contam sobre os primeiros desafios operacionais e com os financiadores, as pesquisas de campo e a evolução da organização. Confira a primeira parte no link.
O ano de 2012 foi dedicado a iniciar o escritório, aplicar a pesquisa e estruturar os resultados. Em 2013, começou-se a oferecer microcrédito e foi firmada uma parceria com o Sebrae para capacitar empreendedores, aproveitando o espaço dos Centros Comunitários da Associação dos Trabalhadores Sem Terra (ATST) com bastante procura pelos treinamentos que duraram seis meses. Após esse período, os microempreendedores avaliaram que a metodologia do Sebrae era “muito engessada”.
“Entendemos que nós é que tínhamos de oferecer as capacitações. Em abril de 2013 chegou uma nova funcionária à iniciativa, Matilde Silva para cuidar da parte administrativa, atendimento aos interessados pelo microcrédito e assessoria. No início fizemos um grande trabalho de busca de parcerias, além do Sebrae, a partir de uma articulação cuidadosa e difícil, porque a organização ainda não tinha nome nem tamanho, só o público. Um dos principais ativos e que chamou muito a atenção dos parceiros foi a sistematização dos resultados das pesquisas que detalhavam muito bem o perfil do público.
Eu me lembro que fomos ao Banco do Brasil, que é uma organização que tem uma imensa capilaridade e muito acesso à pesquisa de mercado e de governos, e eles ficaram impressionados com as informações da AdC e pela pesquisa aprofundada com uma pequena população. Isso acabou sendo um ativo que ajudou na mobilização dos recursos externos”, ressalta Silvia.
Todos os consultores que passaram pela AdC, mesmo aquelas que ficaram pouco, ajudaram no seu crescimento.
Quem pode falar um pouco sobre isso é o italiano Adriano Gaved, engenheiro e hoje consultor da maisQI que se juntou à organização em setembro de 2013. Formado em engenharia eletrônica, com experiência em análises quantitativas e estatística, é especializado em gestão de projetos, equipes e gerenciamento empresarial.
Adriano conta um pouco de sua passagem pela AdC:
“Sou italiano, mas também cidadão brasileiro e cheguei ao Brasil para ser o chefe de uma empresa do Grupo Bandeirantes de Comunicação (a TV Band), parceira da empresa italiana onde trabalhava, fiquei alguns anos e depois me tornei consultor de uma empresa na área da Petrobrás, que naqueles anos - entre 2012 e 2014 - passou por uma grande crise. Nessa época eu já conhecia a Silvia por meio de amigos comuns, e ela me pediu para ajudar na primeira fase da AdC.
Naquele tempo eu morava no Rio. Em poucas semanas fui à São Paulo e comecei a fazer capacitações e assessorias. Uma das minhas atribuições era definir metodologias: para avaliar o impacto da AdC, ou fazer uma avaliação rápida do potencial do empreendedor. Foi uma das melhores coisas que fiz na vida. Aprendi muitas coisas nessa interação pelo fato da Silvia, no mundo do terceiro setor, ter uma prática lógica, correta e coerente e ficando na ponta com as pessoas que precisam, querendo ajudar de verdade, e isso é muito raro.
Quando entrei, a AdC oferecia microcrédito, e logo percebemos que não era uma coisa que tinha tração, ou seja, as pessoas não precisavam muito desse tipo de serviço. Outra coisa que me surpreendeu positivamente foi a qualidade da pesquisa inicial feita com os empreendedores. Em uma situação como essa, fazer um investimento de tempo e dinheiro em uma pesquisa daquele tipo, para entender exatamente quais eram as necessidades do público-alvo e a seriedade de querer resolver efetivamente necessidades das pessoas, foi algo que eu só vi na AdC ao longo da minha carreira.
Eu aprendi muito profissionalmente trabalhando na AdC: lembro que eu chegava nos empreendedores como consultor de empresas, pensando em fazer o planejamento estratégico dos empreendimentos, ou seja, definir missão, visão, valores. E quando eu conversava com eles, com meu português quebrado, e com a minha cabeça de gringo, essas eram as minhas referências. Então entendi que não fazia sentido para eles fazerem o planejamento estratégico, porque partiam de diferentes premissas. Toda a teoria sobre o conceito de planejamento estratégico é uma ferramenta de comunicação interna. Entendi que um microempreendedor, dono do próprio negócio, não precisa comunicar sua missão para si mesmo, pois sabe o que quer alcançar e vai atrás disso. Entendi mais o que é o planejamento estratégico falando com os microempreendedores do bairro Sol Nascente do que aplicando e estudando isso nas grandes empresas. Outra surpresa foi como eles sabiam precificar. Existem teorias, cruzamento de dados, curvas e infográficos. Falando com eles se entende de verdade o que significa definir o preço.
Me senti honrado de ajudar esses microempreendedores. Não tem coisa mais útil no mundo que ajudar uma pessoa a tocar um negócio, ter uma responsabilidade, tentar fazer algo de bom para si e para a sua família. Isso para mim foi um presente, uma grande honra. E eu agradeço a Sílvia por me envolver nessa aventura. Literalmente”, completa Adriano.
E ele continua:
“Uma das coisas únicas da AdC é, por um lado, a atenção às situações concretas e necessidades reais, e por outro, a valorização da teoria. Ou seja, a avaliação do impacto se fala há alguns anos, nós começamos isso há onze anos, em 2014, 2015, onze anos atrás. Essa é uma outra atitude da Sílvia que faz a diferença. E eu entendi que não tem coisa mais prática que uma boa teoria. Essa atenção à realidade sem imaginá-la, e a compreensão dos fenômenos, até teóricos, só vi na AdC. Daí entendemos como a AdC consegue criar tantos relacionamentos sólidos com centros de pesquisa e universidades”, destaca Adriano.
Silvia ressalta que não havia uma ideia pré-concebida sobre como seria a obra.
“Começamos com o tema do microcrédito, depois, seguindo a realidade, seguimos por outro caminho, tanto na missão quanto na organização. A missão era o microcrédito. Depois, com tudo que fomos vendo, virou outra coisa. Entre 2013 e 2014, descobri que existia uma organização que se chama Aliança Empreendedora que faz um trabalho similar à AdC, e pensei: então não estou louca. Para mim nunca foi um projeto, mas entender como responder à realidade e às necessidades dessas pessoas da forma melhor e mais adequada para elas. Se a maioria dos bancos oferecem microcrédito subsidiado, não precisávamos fazer. Se os empreendedores têm dificuldades em acessar o Sebrae, vamos levar o Sebrae até eles. Sempre foi uma questão de seguir a realidade que permitiu à AdC ser aquilo que é hoje.
Do ponto de vista da organização, o nome e o logo não foram pensados a priori. Para que o recurso da Itália pudesse chegar era preciso ter um CNPJ e um nome. E sendo que a palavra aventura, no Brasil, significa algo que não se sabe onde vai dar, me veio a imagem de uma aventura de construir juntos.
Fui inspirada pelo Padre Carron, ex-responsável do movimento Comunhão e Libertação, que veio ao Brasil nessa época e me disse: ‘Silvia, que essa obra seja uma aventura para a sua vida’. Sendo que um microempreendedor tem que crescer, e esse processo de crescimento é a aventura da sua vida: quanto mais ele cresce pessoalmente, mais cresce profissionalmente e mais perguntas vão nascer, é realmente uma aventura a construção de toda sua pessoa. É um construir da pessoa, do empreendimento, da família, da comunidade. Consultei o Marcos Zerbini e a Cleuza Ramos, da ATST, que também gostaram da ideia, e foi assim que o nome surgiu em maio de 2011.
Em agosto de 2011, fui a Washington conversar com o Álvaro Manoel, do Banco Mundial, que sugeriu fazer uma apresentação da AdC para pessoas especializadas em microempreendedorismo. Ele levantou dúvidas sobre o nome: aventura é uma palavra que sugere risco. Mesmo assim, decidimos manter a marca e o logo, com quadradinhos que vão aumentando, sugerindo o crescimento e fortalecimento do negócio. Esse desenho simboliza a tentativa de dar solidez à ideia: não era uma aventura sem futuro, ao contrário”.
Dentro dessa trajetória, Silvia entendeu melhor sobre a importância de sua permanência no Brasil.
“Percebi que estava construindo algo que realmente respondia a uma necessidade, mas isso não foi o mais importante para querer ficar, mesmo nos momentos difíceis, e tiveram muitos. Percebi que aquilo era bom para a minha vida e me permitiu crescer mais como pessoa, dentro dos momentos bons e, sobretudo, dos difíceis. E nesses 15 anos, foi algo que foi muito bom, pois, para mim, construir tem valor. Quem cria é a própria criatura. A coisa melhor que um pai pode fazer para um filho é deixá-lo caminhar, correr, crescer. E depois, se a construção foi boa, vamos ver no futuro, não só nesses primeiros 15 anos.”
A AdC se formou a partir da coragem de testar caminhos, reconhecer limites e mudar de direção quando a realidade assim exigia. As pesquisas de campo, as parcerias, as capacitações e os primeiros desafios operacionais mostraram que a contribuição mais valiosa da AdC não estava apenas no microcrédito, mas na capacidade de olhar para cada empreendedor de forma concreta, oferecendo apoio, método e presença.
Ao mesmo tempo, o surgimento do nome Aventura de Construir sintetizou a identidade da obra: uma construção compartilhada, feita de crescimento pessoal, fortalecimento dos negócios, vínculos comunitários e aprendizado contínuo. Assim, a AdC consolidou seus primeiros passos como uma iniciativa aberta à realidade, sustentada pela seriedade do trabalho, pela força dos relacionamentos e pela convicção de que construir é, antes de tudo, acompanhar pessoas em seu caminho de desenvolvimento.


