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QUAL É O PROPÓSITO DE UM FUNDO PATRIMONIAL - Entrevista Diego Martins, Pragma - parte 1



Neste mês, a AdC lançou o Fundo Patrimonial Aventura de Construir “Já, Devagar e Sempre”. Trata-se de uma nova forma de apoiar o nosso trabalho, e de apoiar a transformação de mulheres e homens protagonistas de suas histórias. Você pode colaborar com o fundo por aqui.


Mas o que é um Fundo Patrimonial ou Fundo de Endowment? Qual a importância dele para ajudar instituições do 3º setor? Para responder a estas perguntas, conversamos com Diego Martins, da Pragma. Confira abaixo o nosso Blog AdC com a primeira parte da entrevista.



Aventura de Construir: Diego, por favor se apresente para nossos leitores.


Diego Martins: Eu me chamo Diego Martins. Trabalho hoje como sócio de uma empresa que faz gestão de patrimônio de famílias e de investidores institucionais aqui no Brasil, chamada Pragma. Além disso, sou um dos fundadores do Fundo Patrimonial Amigos da Poli. Fui um dos primeiros diretores, o primeiro diretor financeiro do fundo. Tive esse cargo por lá durante seis anos: dois mandatos consecutivos, depois um terceiro. Do lado filantrópico, ainda hoje sou membro do conselho fiscal do Amigos da Poli e também membro do comitê de investimentos do Fundo Brasil de Direitos Humanos, que também detém um endowment aqui no Brasil.


Particularmente, aqui na Pragma, sou responsável pelas áreas de Asset Allocation, ou seja, pela definição da alocação dos ativos para o portfólio dos nossos clientes, e também pelo atendimento da nossa carteira de investidores institucionais, portanto, de instituições que possuem endowment funds e, às vezes, fundos de reserva. 


AdC: A partir da experiência bem ampla que você tem, evidentemente, com a criação e a gestão de fundos patrimoniais. Qual é o valor de criar um fundo patrimonial quando falamos de organizações do terceiro setor? 


Diego Martins: Eu tenho até que me conter um pouco para responder esse tipo de pergunta, porque eu sou um entusiasta dos Fundos patrimoniais. Isso porque eu sei que uma das maiores dores que as organizações filantrópicas têm é justamente a captação. É a dificuldade de, todo ano, se organizar para poder passar o chapéu e recolher recursos para poder manter a sua causa. 


Acho que captar faz sentido para você escalar o projeto. Mas você precisa, todo ano, captar recursos para sobreviver. Isso é uma atividade muito pesada para as organizações filantrópicas, porque no fim do dia a instituição em si deveria gastar muito mais a sua energia na causa do que necessariamente conseguindo meios para causa. 


Mas não é isso que acontece. As organizações precisam dedicar uma energia muito grande para a captação, e o fundo patrimonial é um veículo excelente de perenização de causas. Por exemplo, assumindo que um fundo patrimonial seja capaz de render 5% ao ano acima da inflação, a cada 100 reais que você conseguiu de doação, você passou a ter cinco reais eternamente destinados à causa e corrigidos pela inflação. 


Então, um endowment que funciona bem, ele pereniza a causa. E para todas aquelas organizações que têm causas que precisam se manter por um horizonte razoavelmente grande, ter um fundo patrimonial faz muito sentido. 


A perenidade das instituições


Isso me remete inclusive à origem dos Fundos patrimoniais. Quando a gente volta historicamente, tenta encontrar os primeiros exemplos de fundos patrimoniais da história, a gente vai ver lá que o imperador Marco Aurélio fez doações para as escolas de filosofia atenienses. Ele, como um filósofo estoico, gostava muito da filosofia, acreditava no poder do desenvolvimento da filosofia. 


Quando ele viu as escolas em Atenas, ele pensou: "Puxa, isso aqui tem que existir para sempre". Então ele doou terra para essas escolas, porque naquele momento, terra era a maneira de se investir garantindo poder de compra. A terra produz alimento, o alimento está diretamente ligado com ciclos e preço de alimento diretamente ligado com ciclos inflacionários. Então, a terra produz alimento, você vende o alimento, consegue uma renda corrigida pela inflação. E o que você faz com essa renda corrigida pela inflação? Paga salário de professor, que tem que ser corrigido pela inflação também, para manter poder de compra no tempo. Então, perceba o poder da perenização de uma causa através de uma dotação patrimonial permanente.


Então, eu acredito muito no poder dos endowments para dar fôlego às organizações, para que elas consigam de fato focar no seu objetivo social. 


E não que você tenha que deixar de lado a captação, né? Mas eu acredito muito no círculo virtuoso que isso cria. A gente sabe que doadores em geral gostam muito de doar para causa, de saber que o dinheiro deles está chegando lá no fim, que o dinheiro deles não é só meio. No entanto, as organizações precisam existir, e quando você tem um endowment, capaz de gerar verba livre para ela, ou seja, rendimentos para que ela possa decidir a melhor maneira de alocar isso, é poderosíssimo. 


O endowment, como investimento intergeracional, tem essa capacidade. Eles cresceram muito no meio educacional e, hoje, os grandes endowments do mundo pertencem a grandes universidades. É difícil estabelecer qual a relação de causalidade, se as melhores universidades do mundo são as melhores porque têm bons endowments ou se elas têm bons endowments porque são as melhores. 


Independente disso, o que eu consigo compartilhar com vocês é que estes endowments garantem uma coisa importantíssima para as universidades, que é a independência intelectual. Porque quando uma universidade depende de captação todo ano para se manter, ela pode estar vinculada ao doador, querendo ou não, ela vai ter que fazer coisas para atrair a atenção dele. 


Quando ela está sentada em cima de um endowment bilionário que todo ano garante 30% ou 40% do orçamento dela, ela abre o leque de possibilidades de pesquisa, de desenvolvimento intelectual, etc. Ou seja, independência. Ter um endowment traz perenização e independência para as causas. 



AdC: Como você considera a receptividade do mercado brasileiro diante destes tipos de fundos? E o que você acha que seria interessante levar em conta para fazer conhecer o nosso fundo patrimonial?


Diego Martins: Eu vou dar uma resposta otimista com a perspectiva histórica sobre Fundos patrimoniais no Brasil. Até porque eu tive o prazer e a honra de participar da criação de um dos primeiros, senão o primeiro endowment universitário do Brasil.


Lá fora, principalmente nas culturas anglo-saxônicas, nos Estados Unidos e na Inglaterra, os endowments universitários já são um veículo de doação super tradicional. E aqui no Brasil, há 14 anos atrás, quando a gente começou a gestar a ideia do Amigos da Poli, esse veículo não existia. 


Há 10 anos atrás, ou há 14 anos atrás, a gente tinha que sentar com o potencial doador e explicar o que era um endowment, como ele funcionava e porque a gente acreditava que esse projeto pararia de pé. 


Olhando 14 anos depois, hoje a gente pega o anuário de endowments que o IDIS fez, com algumas parcerias, e nele já consta mais de 60, 50 e tantos endowments. Quase 60 endowments no próprio site do IDIS. Ou seja, era um veículo que praticamente inexistia, ou que quase não se falava nele. Hoje é mais popular. A gente conseguiu vencer no Brasil a primeira barreira, da popularização do endowment como uma ferramenta de doação. 


Hoje o doador vê matéria sobre isso no valor econômico, no Estadão, ele vê matérias em jornal. Desde 2019 a gente já tem uma lei específica para endowments no Brasil, e isso colocou o assunto em pauta. Acho que estamos começando até bem rápido, e faz parte desse nosso trabalho como agentes do terceiro setor de popularizar o mecanismo. 


O exemplo de Harvard


E como realizamos isso? Uma vez, conversando com captadores do endowment de Harvard, eu ouvi uma explicação muito interessante sobre os ciclos de captação deles. 


Os números de captação de Harvard são absurdos, bilhões de dólares captados em cada ciclo de captação e doações de centenas de milhares de americanos. E aí, fica a questão: o doador médio americano pode conhecer Harvard, saber do impacto da instituição, mas não dá para acreditar que essas centenas de milhares de lares acreditem que um dia o seu filho vai estudar nessa universidade. Por que eles doam se não tem um objetivo direto, se não vai materializar algum benefício próprio? 


Então, perguntando isso para o captador de lá, o que ouvi foi o seguinte: “o que você tem que entender é que as pessoas não doam para Harvard, elas doam através de Harvard.” Ou seja, elas veem no endowment um mecanismo tão poderoso de doação que o mecanismo em si atrai a doação. 


Então, não é realizada a doação querendo um objetivo direto em Harvard, mas vendo que essa organização está tão bem preparada, tem um endowment tão bem estruturado, que eu sei que a minha doação ali vai ser bem gerida e vai ser bem aplicada. 


Para mim, esse é o objetivo máximo e o termômetro de que chegamos lá: o dia que o doador olhar para os endowments das nossas organizações, ver que há um mecanismo eficiente de doação, e isso atrair a captação.



Momento atual

No Brasil, como eu disse, estamos começando a popularizar esses fundos. As dúvidas em relação a segurança jurídica, a questão regulatória, ao mecanismo em si estão sendo superadas. No entanto, eu ainda acredito que a gente pode melhorar na visibilidade de que o veículo é super eficiente. 


Se eu tenho 100 reais na minha mão e quero doar, as duas decisões são super válidas com impactos diferentes. A primeira é querer ver agora, imediatamente, o impacto do meu dinheiro. Então eu pego esses 100 reais e dou para uma causa e falo gaste tudo hoje.


Existe outra maneira de contribuir por uma causa que eu acredito que é séria, que é bem gerida, e que vai existir pelos próximos 100 anos. Esses meus 100 reais vão gerar 5 reais todos os anos, então daqui a 10 anos os meus 100 já viraram 50 a mais, e daqui a 20 anos, 100 e assim por diante.


Por fim, eu diria que estamos no meio do caminho ainda. O modelo já é bem entendido, mas acho que ainda falta o terceiro setor conseguir dar clareza para as pessoas do potencial poderosíssimo que isso tem.



AdC: O Fundo Patrimonial da Aventura de Construir trata-se do primeiro Fundo Patrimonial ativo no Brasil para operar sobre a missão de desenvolvimento territorial inclusivo, diretamente alinhado ao Estatuto da AdC: “promoção do desenvolvimento econômico e social e combate à pobreza; experimentação, não lucrativa, de novos modelos socioprodutivos e de sistemas alternativos de produção, comércio, emprego e crédito.” Você acredita que o mercado está pronto para uma proposta como esta e com este escopo?


Diego Martins: Pela minha experiência com o terceiro setor, eu acredito que existem pessoas com desejo de doar para as mais diversas causas possíveis. Então temos uma questão de foco, pois às vezes temos apenas que tentar encontrar essas pessoas. 


Nesses meus quase 14 anos envolvido com o terceiro setor, eu percebo que existem pessoas que querem dedicar o seu patrimônio de uma maneira mais imediata e para causas mais assistencialistas, e acho super válido pois temos necessidades emergenciais no Brasil, e a gente tem que cobrir isso. 


Ao mesmo tempo, isso não significa que a gente tem que deixar de lado outras causas de mais longo prazo. Então, por exemplo, nesse aspecto mais de empreendedorismo, crédito etc. da AdC, eu colocaria dentro da mesma categoria, do mesmo poder transformacional de educação, que é um poder transformacional geracional, não é um poder transformacional imediatista. 


Não é colocar comida na mesa das pessoas, que é super importante, pois segurança alimentar é um negócio básico, assim como a mortalidade infantil, outro negócio básico. Mas também podemos pensar na primeira infância, e em outros momentos da vida. A gente não precisa esperar mais uma geração para construir isso.


Então assim, o meu principal ponto é: eu acredito que existe potencial de captação para toda e qualquer causa que seja bem estruturada, bem gerida e que tenha os mecanismos adequados para poder transmitir segurança para o doador. A gente sabe que o maior problema do doador brasileiro é que ele é um doador ressabiado, um doador que desconfia e confia desconfiando. Por que? Porque a gente vê muito mais na imprensa os maus exemplos. Isso gera desconfiança.


No entanto, eu tenho visto o sucesso de causas bem estruturadas nos seus movimentos de captação. E uma vez que uma organização entra numa atração positiva é de bons resultados, um doador atrai o outro, um doador fala bem pro outro. Porque geralmente essas pessoas que têm afinidades com uma mesma causa elas se conhecem. 


A gente vê isso no Amigos da Poli. Temos um vínculo muito mais emotivo, que é com a escola onde nos formamos de maneira gratuita, então assim tem todo um vínculo que a gente utiliza para poder captar. 


Mas querendo ou não, quando  falamos com o doador uma das perguntas que sempre fazemos para ele é “qual que é o próximo? Quem você pode nos indicar?” As pessoas têm afinidades então eu acredito que toda boa causa bem estruturada bem gerida tem espaço para a captação. E mais do que isso, no caso da causa de vocês eu vejo como uma causa extremamente relevante em termos de transformação social. 



Tem espaço para todo mundo

Existem problemas básicos no Brasil sim, mas precisamos ter alguém pensando no passo seguinte. Eu converso com diversas organizações e sempre digo isso: “existem organizações ambientais, organizações educacionais, organizações de assistência social… meus caros, acho que tem espaço para todo mundo. Infelizmente o que não falta no Brasil são problemas sociais, ambientais etc”. Então tendo instituições sérias para tocar essas causas, e tendo uma boa estrutura de governança eu não vejo problema de captação para o endowment. 


A captação, assim como quase tudo na vida, é uma questão de estratégia, de entender o seu público, entender o valor do seu trabalho, dos seus projetos, da sua organização e saber ligar essas duas pontes. É preciso ter uma visão mais marqueteira mesmo, em pensamento lógico de marketing. Entender o seu “produto”, entender o seu público, entender que valor você consegue transferir para o seu público, mesmo que seja uma instituição filantrópica. Precisamos pensar em captação de maneira estratégica para que você não gaste energia no lugar errado. 


Então, resumindo, eu não vejo problema nos diferentes tipos de causa. Eu acho que tem espaço para todo mundo com projetos bem organizados, com sistemas de captação bem pensados, e com mecanismos de investimento, no caso de um endowment, bem estruturados para transmitir segurança para investidor. 




Confira, no mês que vem, a segunda parte desta entrevista!

E você pode colaborar com o Fundo Patrimonial da Aventura de Construir. Acesse o link e apoie! Já, devagar e sempre!



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