Raízes que Constroem: 15 anos da Aventura - Origem e fundação
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Como começou a Aventura de Construir (AdC)? Como foi sua evolução ao longo dos anos e por quais transformações passou a partir do projeto inicial para atender seu público-alvo? Essas indagações ficam mais provocadoras tanto para aqueles que participaram de sua fundação quanto para os que a conhecem agora.
Com a chegada dos 15 anos da organização, surgiu a ideia de deixar um registro escrito desta história que se confunde com a trajetória da própria fundadora, a economista Silvia Caironi, que chegou ao Brasil para tocar uma obra de oferta de microcrédito para empreendedores da periferia a partir do financiamento da fundação italiana Umano Progresso, de Milão, liderada por Angelo Abbondio (1941-2022).
Silvia, conta um pouco desse começo, quando a AdC nem tinha este nome:
“Um amigo, Mario Molteni, que é o fundador da ALTIS e da E4Impact, respectivamente escola de negócios e organização de impacto ponte entre a Universidade Católica de Milão e universidades africanas, me falou que uma fundação queria começar um projeto de financiamento para microempreendedores nas periferias de São Paulo, em particular na periferia da zona oeste da capital paulista, em parceria com a Associação dos Trabalhadores Sem Terra (ATST) de São Paulo, liderada por Marcos Zerbini (ex-deputado estadual de São Paulo) e sua esposa Cleuza Ramos”.
Nessa época, Silvia era administradora da Cáritas no Peru, que tinha um dos três maiores programas de microcrédito daquele país em 2010. Mario Molteni, conhecendo esta experiência, a convidou para liderar um programa similar no Brasil ligado à ATST.
A princípio, Silvia não se interessou. Mas por amizade - e insistência de Mario Molteni - concordou em escrever um projeto.
“Conversando com uma amiga economista, comecei a me empolgar com a iniciativa e com o tema. Escrevi o projeto, mandei para o Mario, e ele passou para o Abbondio da Fundação Umano Progresso”, diz Silvia.
Em seguida, ela foi para a Itália de férias e se encontrou com Angelo Abbondio, head da fundação, que se propôs a financiar microcrédito no Brasil, contanto que Silvia liderasse a obra. Ela ainda estava na Cáritas, no Peru, onde ficou até novembro de 2010. Encerrado este ciclo, chegou ao Brasil em fevereiro de 2011.
“Vim duas vezes antes para verificar se as condições para começar esse trabalho eram viáveis”, detalha Silvia.
Aqui chegando, começou a pesquisa para a montagem de uma organização de microcrédito, na periferia da zona oeste da capital paulista, alcançando territórios onde a ATST atuava como Morro Doce, Sol Nascente, Pirituba, Turística e Vila Aurora. Neste início, Silvia agendou reuniões em várias instituições financeiras que trabalhavam com microcrédito, como o Banco do Nordeste e o Santander, onde ficou amiga de um diretor da área. Com seis meses de Brasil, e ainda estudando como abrir juridicamente a organização de microcrédito, o Governo Federal – época da presidente Dilma Roussef - lançou um programa subsidiado.
Antes de passar um período na Itália – onde ficou oito meses à espera do visto para morar no Brasil – Silvia passou por Washington (EUA) para consultar pessoas especializadas em microcrédito.
Felipe Mahlmeister Ribeiro, cientista social, conta como se juntou à organização que seria a AdC em 2011, quando foi criado o CNPJ da organização.
“Fiquei sabendo que a Silvia estava vindo para o Brasil, e estava interessado em começar um trabalho com essa perspectiva. Naqueles anos, a economia solidária e o microcrédito estavam muito fortes, existiam muitas iniciativas no mundo inteiro, muita pesquisa acadêmica, livros sendo publicados, e eu tinha interesse em trabalhar nessa área. Conheci a Silvia, e ela me falou do trabalho que se adequou ao que eu buscava profissionalmente.
Em um primeiro momento, quando ela ainda estava montando a organização juridicamente, surgiu a possibilidade de parceria com o BAMIC (Banco Mineiro de Microcrédito), OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) de Belo Horizonte (MG) que oferecia essa linha de financiamento para a região. Fizemos um acordo com eles e em 2012 fui para Belo Horizonte e fiquei alguns meses no BAMIC conhecendo a operação de microcrédito ligada ao CEDUC (Centro Educativo Virgilio Resi), para depois continuar o trabalho análogo junto com a Silvia em São Paulo. Nesse período conhecemos o BAMIC que tinha passado por muitas mudanças de gestão e precisavam organizar melhor os números, e tivemos um papel importante nesse processo”, diz Felipe.
Ele voltou à São Paulo e começou a ajudar nas tarefas do dia a dia. O BAMIC estava ligado à duas organizações, a CDM e ao Centro de Biodiversidade, dentro do Ceduc Virgílio Resi, centro de formação profissional para jovens aprendizes.
Após o trabalho do Felipe em BH foi possível ter mais informações sobre a difícil sustentabilidade financeira do microcrédito, pois o BAMIC operava com déficit.
“É um desafio do ponto de vista da sustentabilidade financeira, porque cada empréstimo gera uma receita minúscula para o banco. Então, se você não tem um controle muito rigoroso dos números, começa a operar no prejuízo sem perceber. Muitas vezes é um pequeno prejuízo, mas se isso acontece mensalmente leva a organização à falência. E descobrimos que estavam nesse ponto”, conta Silvia.
Em São Paulo, Felipe Ribeiro e o economista Felipe Mecchi, que se juntou à organização na época, começaram a pesquisa de campo com os empreendedores dos bairros periféricos. Foram vários meses entrevistando os donos de comércios, com a meta de quatro interações por dia.
“Meta difícil de ser alcançada, dado que o formulário tinha 200 perguntas. Eram entrevistas muito longas. Em seguida começamos a fazer a ponte com o pessoal do microcrédito do Banco do Povo Paulista, que na época se mostrou a melhor instituição financeira para trabalhar em parceria.
Eles tinham a disponibilidade de alocar um agente de microcrédito de carro alguns dias por semana para ficar rodando conosco nos bairros. As entrevistas com os empreendedores, que duravam quase duas horas, continuaram e ajudavam a identificar potenciais clientes. Entrávamos nos comércios para conhecer os donos e muitos não queriam parar o trabalho para responder, pois as entrevistas ocorriam durante o horário comercial.
Com isso, caracterizamos o público-alvo e começamos a identificar quem eram os bancos que tinham interesse em trabalhar conosco: vários apareceram. O Banco do Povo foi escolhido pois tinha juro mais baixo e metodologia mais sólida, desenvolvida pelo bengali Muhammad Yunus, que criou o conceito de microcrédito e microfinanças, desenvolvido nos últimos 30 anos em Bangladesh”, relembra Felipe.
Ele detalhou um pouco mais sobre a metodologia das entrevistas:
“Para não atrapalhar seus negócios, eu pedia ao empreendedor manter sua rotina de vendas e enquanto ele trabalhava eu continuava ali, esperando por sua disponibilidade. Também deixava claro que, se eu perguntasse alguma coisa que achasse inconveniente, especialmente em relação ao dinheiro, não precisava responder. Mas, no geral, foi possível levantar muitas informações e eles começaram a nos conhecer, pois andávamos pelo bairro. A gente batia na porta e eles pediam para voltar na semana que vem, mas já nos conheciam, nos viam pelo bairro, almoçando em alguns bares”.
Entre as memórias mais curiosas da fase de pesquisa de campo, Felipe recorda o episódio em que, no afã de cumprir a meta diária, acabou entrevistando um comerciante cujo negócio era completamente ilegal — algo que só percebeu no decorrer da conversa.
“O homem vendia DVDs de videogame falsificados. Disse a ele para responder só as perguntas que podia e as outras deixaria em branco”, conta Felipe. Para ele, a situação era análoga à de uma cabeleireira que vendia produtos sem nota fiscal: em ambos os casos, havia a possibilidade de um caminho diferente. Ainda assim, ao encerrar a entrevista, concluiu que aquele não era o perfil de público-alvo da AdC.
Tínhamos uma baixa expectativa no número de entrevistas. A meta era quatro por dia, mas em alguns conseguimos no máximo duas, ou uma. Tinha dia que a pessoa passava mal por causa do calor. Não fazíamos muitas visitas porque cada uma era bem profunda nos bairros de atuação da ATST, associação que começou no final dos anos 70 para trabalhar com moradia e que já beneficiou mais de 40 mil famílias da periferia da zona oeste.
Com a compra do lote, entra o processo de urbanização e de regularização com a prefeitura. Nós começamos lá e o apoio da fundação italiana era para fazer algo com eles. E descobrimos que a vida desses territórios é muito dinâmica.
Muita gente se beneficiou dos lotes, mas não sabia nada sobre a ATST. São milhares de casas que foram construídas pela associação, tudo documentado e inventariado. As vezes só o avô e a avó ou o pai sabiam que a origem do terreno da casa ou do ponto comercial que tinha a ATST como origem. Então vimos que a história do bairro ficou registrada apenas para alguns.
Além do Banco do Povo, trabalhamos um pouco com o Sebrae. A ATST nos auxiliou com os centros comunitários, lugares em cada bairro para as reuniões e palestras. Muito da energia da AdC vem da facilidade com que a Silvia consolida relacionamentos com as pessoas, o famoso “networking”, aponta Felipe.
Ao revisitar a origem da Aventura de Construir, percebe-se que a AdC nasceu de uma escuta atenta da realidade, de relações de confiança e de uma disposição concreta para responder aos desafios encontrados nas periferias de São Paulo.
O projeto inicial de microcrédito foi se transformando à medida que a equipe conhecia de perto os empreendedores, os bairros, suas histórias e necessidades. Mais do que oferecer financiamento, a organização começou a construir vínculos, compreender trajetórias e reconhecer a força de territórios marcados por dinamismo, trabalho e criatividade.
Assim, os primeiros anos da AdC revelam não apenas a fundação de uma instituição, mas o início de uma caminhada coletiva baseada em presença, aprendizagem e compromisso com o desenvolvimento humano e econômico das comunidades atendidas.