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Negócios de Impacto: abrangência x profundidade

Você sabe o que são negócios de impacto socioambiental? Qual é a diferença entre eles, empresas tradicionais e ONGs? A Aventura de Construir trabalha diretamente com estas organizações que agem na intersecção entre empreendedorismo e sustentabilidade, onde o lucro se une ao propósito de transformar positivamente o mundo ao nosso redor. À medida que a consciência sobre as questões sociais e ambientais aumenta, os negócios de impacto surgem como uma poderosa força de mudança.

Em um cenário global cada vez mais preocupado com as mudanças climáticas, a desigualdade social e a escassez de recursos naturais, os negócios de impacto socioambiental têm se destacado como uma alternativa viável e promissora. Eles visam oferecer soluções inovadoras e sustentáveis, capazes de enfrentar os desafios mais urgentes de nossa sociedade.

Para nos aprofundarmos ainda mais no tema a AdC realizou na última terça-feira, dia 16 de maio, um encontro interno sobre “Abrangência x Profundidade na lógica do impacto”, com a participação da professora da USP Graziella Comini, pesquisadora no assunto.

Abaixo, leia mais sobre os principais pontos citados!

Afinal, o que são negócios de impacto socioambiental? São empreendimentos que buscam, de forma consciente e estratégica, gerar impacto positivo em múltiplas dimensões: social, ambiental e econômica. Eles não apenas visam o lucro financeiro, mas também a criação de valor para a sociedade e para o meio ambiente.

Segundo a professora Graziella Comini, para diferenciar negócios socioambientais, ou negócios sociais, de empresas tradicionais, deve-se levar em conta a intencionalidade: “este é um aspecto fundamental pois aquela organização já nasce para resolver um problema, e utiliza-se da lógica de mercado e da venda de produtos e serviços para poder contribuir para esta resolução”.


Figura por Comini (2016)

A pesquisa de livre docência de Graziella sobre o tema tem início há dez anos e teve como objetivo estruturar um referencial teórico que classificasse os negócios sociais e definir categorias temáticas que pudessem orientar sobre o que é a geração de valor socioambiental. 

Uma iniciativa surgida neste contexto foi a Brasil 27 na qual foram mapeados um empreendimento social em cada estado brasileiro. Os pesquisadores envolvidos viajaram pelas cidades dialogando com diferentes stakeholders, fossem clientes, beneficiários ou fundadores. 

A partir desse material descritivo que surgiu a tese de livre docência de Graziella, onde ela começa a analisar os tipos de inovação nesse meio. No levantamento realizado, tinha-se a ideia de mergulhar nestes empreendimentos, entender as diferenças e pensar se todas as organizações que geram valor socioambiental também implementam inovações sociais. Definindo assim qual é a relação entre gerar valor e ser inovador. 

Graziella explica que no Brasil, por não termos uma legislação específica que delimita os negócios sociais, há um guarda-chuva mais amplo de empreendimento social, que sempre foi muito caracterizado pela questão de tratar a problemática social. A professora descreve o cenário e as movimentações ocorridas, dentro deste cenário, nas últimas décadas: 

“Eu sou testemunha viva de que, a partir da década de 90, a gente começa a ter um cenário de muitas transformações, porque as empresas tradicionais, seja de forma espontânea ou pela pressão de diferentes atores, começaram a introduzir a prática de responsabilidade social corporativa e práticas de sustentabilidade que hoje estão muito mais em voga, sobretudo com o acrônimo ESG.

“Com tudo isso, elas começam a incorporar a geração de valor socioambiental, mas de forma muito mais periférica, ou seja, não está no produto ou serviço. Os negócios sociais são aqueles que os produtos e serviços ele tem uma intencionalidade. É diferente de uma empresa tradicional que incorpora na sua prática de cadeia de valor um olhar para reduzir impactos ao meio ambiente, por exemplo, seguindo uma lógica mais de reparação do que de contribuição.” 

“Já no caso de organizações da sociedade civil, que não tem uma lógica de mercado pela sua própria dinâmica, elas começam a também buscar atividades de geração de renda que possam complementar o seu orçamento. Em alguns casos, até criam unidades de negócio dentro da organização, mas precisando ser muito cuidadoso para que não haja uma desvirtualização da sua missão.”

Profundidade x Abrangência

Ao avaliar os 27 empreendimentos, começa a surgir a própria discussão de profundidade e abrangência na pesquisa de Graziella. Buscou-se entender as finalidades desses negócios, o tipo de inovação de cada um, se havia uma abrangência mais local, regional, nacional ou global, e qual era a profundidade da mudança gerada.

“O que a gente viu é que os empreendimentos com mais lógica social, tendem a gerar impactos com mais profundidade, provocam o desenvolvimento mais local e uma transformação social. Então, no meu entender, a contribuição desses negócios é muito qualitativa, porque eles têm uma solução que tem tudo a ver com aquele contexto e transformam aquele território de uma maneira muito interessante.”

“Eu vejo muito as fundações empresariais e fundações apostarem nesse tipo de solução, porque é um tipo de inovação que ainda não está nessa etapa de escalabilidade. Já empreendimentos com lógica de mercado, justamente por esta lógica, valorizam essas iniciativas que conseguem atingir um número maior de beneficiários, muitas vezes associado à tecnologia, ou que possam ser replicadas rapidamente. Nesse caso, a contribuição é muito mais quantitativa e com mais abrangência.


Graziella Comini no evento de lançamento do Ebook da AdC “Da Experiência, Um Método”.

“Em um país onde a gente tem  problemas crônicos, sérios e com muitas demandas, é natural que muitos investidores acabem privilegiando as soluções com maior abrangência. Entretanto, a minha discussão na hora que apresentei meu trabalho era questionar se todos os tipos de indicadores de sucesso de um negócio social teriam que ser relacionados a abrangência. Eu acho que existem problemas que este tipo de negócio não vai atacar e acho que tem alguns tipos de território onde também não vai interessar esse modelo.”

“Então, se a gente quer mudar as estruturas, e a gente viu que as inovações não chegaram para todo mundo, talvez a gente tenha que se posicionar no sentido de que negócios sociais também não precisam virar ‘unicórnios sociais’. Existem empreendimentos pequenos e que, de alguma maneira, não querem ser grandes. Precisamos respeitar isso, porque naquele território promovem um grande impacto. Eu vejo que há espaço para tudo e a gente tem que estimular que os investidores identifiquem a relevância de ambos tipos de empreendimento.”

Para conhecer mais sobre o assunto do ecossistema de impacto e o trabalho da Aventura de Construir com negócios de impacto de periferia, confira o e-book “Da experiência, um método: Manual Jornada Integral com Negócios de Impacto Social de Periferias“, realizado em parceria com a Fundação Tide Setúbal e o ICE (Instituto de Cidadania Empresarial). O projeto é a sistematização das experiências acumuladas, aos longos dos 11 anos de atuação com ações de impacto social, para que possam ser compartilhadas e multiplicadas.

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