Raízes que Constroem: 15 anos da Aventura - Desenvolvimento institucional e a transformação em OSCIP
- 15 de jul.
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No segundo encontro da série Raízes que Constroem abordamos o período 2015 a 2019, marcado pela criação da OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público), parceria com a consultoria McKinsey e Accenture, entre outras, e a entrada no Pacto Global. Ainda nesta época: houve a parceria com a Firgum, o começo da captação via investimento social e privado, e a campanha Identificam-se Protagonistas.
A entrevista reuniu Adriano Gaved, que trabalhou como consultor na AdC neste período, Rafael Mahfoud Marcoccia, jornalista e professor de Sociologia e Filosofia na FEI e diretor da AdC; Marcelo Turri, engenheiro mecânico pela Poli-USP com MBA Administração de Negócios no Insper e vice-presidente da AdC; Rafael Neves, consultor de Advocacy no Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) e ex-integrante do conselho consultivo da AdC, e Giacomo Villa, que trabalhou na AdC em 2014-2015 e atualmente é COO e Head of Sales na Manifattura A. Testori di G. SpA da Itália. Confira a seguir o quarto texto da série:
Com a transformação da AdC em OSCIP, mudou não só o formato jurídico, como também a forma como a organização se apresentava ao mundo.
Para Rafael Marcoccia, a mudança foi significativa, pois a AdC começou a ser olhada de forma mais global e holística para os microempreendedores.
“O acesso ao microcrédito, é importante, mas em apenas um aspecto, pois se começa a olhar para os empreendedores de maneira mais ampla”.
Além do acesso ao microcrédito, a AdC começa a oferecer uma educação aos negócios, não só de como formalizar, mas também quais passos iniciais devem ser dados, a separação entre as contas pessoais e jurídicas e a importância do CNPJ.
“E uma preocupação em como aumentar o negócio, não só no sentido de acesso a recursos”, afirma Marcoccia.
Foi uma semente do que foi amadurecido mais a frente, com o desenvolvimento territorial. “Não foi apenas uma questão formal, mas de metodologia: ficou mais evidente a centralidade da pessoa, enfatizado desde o início: com a fundação da OSCIP esse critério começa a ser observado de maneira mais ampla”, diz Rafael Marcoccia.
Marcelo Turri, ressalta importância da centralidade da pessoa, desde a fundação da AdC:
“O que não se perdeu, desde o período anterior à OSCIP, foi a preocupação com a pessoa, com o empreendedor e com o impacto. Já no início, quando comecei a participar, havia essa grande preocupação de entender, de fato, o grupo que era acompanhado pela AdC, o impacto que gerava comparado a outros grupos que não atendíamos”, diz Marcelo.
Ele destaca ainda que a AdC conseguia medir claramente o impacto integral, econômico e social nos empreendimentos.
Como participante do conselho consultivo, Rafael Neves lembra quando entrou na AdC:
“Comecei como estagiário, logo virei consultor em 2017 para 2018, e aí a Silvia me convidou para participar do conselho consultivo, onde fiquei três anos, até 2021. Para mim, foi muito interessante ver a evolução da AdC, tanto do ponto de vista de estar no dia a dia da organização como pela oportunidade de acompanhar mais, posteriormente integrando o conselho consultivo.
Essa virada para OSCIP, para mim, foi muito interessante, porque estava começando a entender esse universo do terceiro setor, acompanhando o amadurecimento das discussões do conselho consultivo e do fundo de endowment e a preparação dos documentos necessários para a AdC ser OSCIP e entrar no Pacto Global.
É nítido o amadurecimento da associação em termos de governança. Para mim foi uma escola ver o desenvolvimento da associação que tem uma missão muito importante ainda hoje, depois de 15 anos, para a população”, afirma.
Giacomo Villa, que trabalhou na AdC entre 2014 e 2015 na captação e no suporte para as capacitações, avalia esse período:
“Para mim, o impacto dessa experiência com os empreendedores da AdC, foi sobretudo acompanhar a Silvia e os colaboradores, e como a organização enxerga o ser humano, o interesse e a profundidade na compreensão das necessidades das pessoas. Depois descobri que isso tinha a ver, de fato, com uma concepção do que é o humano. Só é possível olhar o ser humano assim se você tem uma certa concepção para entender esse dom.
Isso foi algo importantíssimo na minha experiência profissional. Esse processo, que depois se desenvolveu como método, não estava ainda presente, mas com certeza as raízes já tinham começado. Esse método que aprendi e que hoje eu levo para o meu trabalho na Itália, é o método da realidade. Por exemplo, a captação de recursos, o desenvolvimento das parcerias, os encontros, os relacionamentos, o que acontecia, de fato, virava método e era aprofundado.
Tudo que acontece dentro ou fora da organização, é ferramenta para a tomada de decisão. Além dos desafios que eu posso encontrar hoje como empreendedor, sei que o que acontece vai virar uma ajuda e amadurecer uma decisão”, destaca.
Para Silvia Caironi, a mudança de LTDA para OSCIP foi um marco para começar a captar recursos além da fundação filantrópica italiana Umano Progresso.
“A OSCIP fez da AdC uma entidade própria que nascia de uma experiência, mas que tinha todo um aspecto de autonomia e protagonismo, trabalhado junto com o presidente da Umano Progresso, Angelo Abbondio e Fabrizio Pelicelli, diretor da AVSI na América Latina, e que posteriormente entrou para o conselho fiscal e na assembleia da AdC.
Para se tornar uma OSCIP é necessário criar uma associação e que pode demorar anos: nós conseguimos em quatro meses. Nesse percurso, sinto muita falta da Matilde Silva, responsável administrativa da AdC, que faleceu em 2024 pois todo esse processo foi uma construção conjunta e representou uma virada de chave.”
Como OSCIP a AdC se apresentou ao mercado com as credenciais de ter um Conselho Fiscal e uma Assembleia: foi uma transformação radical, do ponto de vista societário e de imagem.
“Dentro, o trabalho era basicamente o mesmo, só que havia a possibilidade de fazer a captação de recursos com mais seriedade. Como Limitada pagávamos impostos, e como OSCIP nos transformamos em uma organização do terceiro setor que precisava de um tempo para alcançar a sustentabilidade”, continua Silvia.
Com o aporte inicial de 1 milhão de euros e posteriormente mais 350 mil euros foi possível ter tranquilidade para iniciar o aprendizado da captação. Para esse trabalho a AdC contratou uma consultoria e recebeu aportes do Instituto Cyrela e do Marcelo Turri.
Marcelo relembra como chegou à AdC:
“Eu faço parte de um movimento católico, Comunhão e Libertação. Quando chegou essa italiana do Peru aqui no Brasil, fui conhecê-la por indicação do Padre Julian de La Morena, que nos apresentou e contou sobre o trabalho e como eu poderia ajudar.
Sou muito grato por existir uma entidade que se preocupa em educar as pessoas para que elas não dependam simplesmente do Estado, mas que empreendam, desenvolvam negócios próprios. Não sou contra o Estado, fui educado graças ao Estado. Fiz todas as séries, primeiro grau, segundo grau, terceiro grau e universidade, tudo em escola pública.
Mas acho que o que falta no Brasil é esse incentivo, ou mais auxílio para que as pessoas não dependam tanto do Estado, mas empreendam e gerem renda a partir do seu protagonismo. Achei muito bacana isso na AdC e foi isso que me motivou a estar aqui, ajudando a Silvia Caironi e todos que estão aqui atualmente.”
Rafael Marcoccia vem da mesma experiência:
“Participo do mesmo movimento que o Marcelo. Um dia a Silvia me ligou e perguntou se eu queria ajudar na AdC. Ela me explicou a transformação de Limitada para OSCIP e se eu queria fazer parte da diretoria. Trabalhando na universidade fiz pesquisa justamente na área que inicialmente a AdC atuava, a Associação dos Trabalhadores Sem Terra de São Paulo ligada à moradia. Fiz pesquisas com eles no meu mestrado e doutorado. Topei, e estou na AdC desde então.
O que me motiva é muito parecido com o que o Marcelo falou, porque as minhas pesquisas, do ponto de vista da academia, foram focadas justamente na centralidade da pessoa e num princípio político que se chama subsidiariedade, de você dar força para as organizações locais, para as organizações da sociedade civil, para que elas possam fazer bem o seu trabalho com toda a sua criatividade, sua liberdade e sua autonomia.
Eu via na AdC uma expressão concreta na sua metodologia, na maneira de enxergar as coisas, de trabalhar esse princípio da centralidade da pessoa, o desenvolvimento humano integral, de olhar a pessoa não só sob um ou dois aspectos, mas para o desenvolvimento dela como um todo, e de fazer as pessoas andarem com as próprias pernas, não serem dependentes do Estado ou de qualquer outra empresa. O que me motiva é essa experiência concreta”.
Rafael Neves conta como se juntou à AdC e os impactos no seu trabalho.
“Cheguei na AdC no início da minha vida acadêmica, ainda na graduação. Hoje estou no doutorado. Primeiro foi o interesse de trabalhar no terceiro setor. Eu me formei em Relações Internacionais, que é uma área que gosto, mas que fica muito nos estudos das grandes questões geopolíticas, economia e política internacional. Eu sentia falta de uma experiência mais concreta com a realidade, e muito interesse em ter um contato com o terceiro setor. Bati na porta da AdC na segunda metade da graduação. Fiz um dia de voluntariado com a Silvia e o Carlos, e, na época, a Matilde e a Yara, uma equipe pequena, mas super atuante. Me convidaram para fazer um estágio. Minha entrada não se deu a partir do grupo católico, que depois eu pude ter contato, principalmente com a filosofia, de que a experiência parte da realidade.
Eu aprendi muito, além da parte técnica, acadêmica, de avaliação de impacto, de assessoria de investimento. Foi uma experiência bastante profunda e transformadora para mim na época. Vale dizer que o que mais me fascina até hoje, de ter passado pela AdC -- hoje eu voltei para o terceiro setor, no Instituto de Pesquisa na área da saúde, que olha muito para nível de governança, -- o que até hoje me interessa, é por ser uma organização capaz de ter uma relação com o território e isso é algo muito rico. Se você tem um contato direto com a população, com a realidade, não é a questão de não depender do Estado, mas como a sociedade civil faz com que as políticas públicas cheguem a determinadas populações, sendo que a sociedade civil organizada é intermediadora, e isso me interessou muito.
Quando a AdC fazia o meio de campo com o Banco do Povo Paulista, com o microcrédito, foi uma experiência única. Hoje a AdC, pelo que vejo de organizações do ecossistema do terceiro setor, é uma das poucas que ainda tem essa relação direta com a população, com o território, e eu acho que isso foi muito marcante para a minha experiência junto à associação”.
Giacomo Villa conta como se juntou à AdC.
“Conheci através de dois amigos, um deles, Francesco Babbi, já tinha trabalhado na AdC. Eu tinha um interesse específico no mestrado na Itália, como estudante de economia, sobre o microcrédito, e quando soube do projeto se abriu a possibilidade de fazer uma pesquisa sobre esse mercado no Brasil.
Depois, vendo o impacto da educação e capacitação, como fator crítico de sucesso dos programas de microcrédito, comparando a Caixa Econômica Federal, o Banco do Povo e o Banco Santander. No começo, foi desafiante aprender o português, e a forma como a Silvia me desafiava, que é também parte do método da formação das pessoas na AdC e com os empreendedores. Isso me motivou desde o início. Muitos empreendedores começavam um negócio sem de fato ter ferramentas práticas ou teóricas, sobre educação financeira.” conta Giacomo.
No início, Silvia não assumiu a presidência da AdC por questões de visto de permanência no Brasil.
“Quando criamos a OSCIP, meu vínculo era com a Limitada e entrei na presidência só a partir de 2017. Em 2015, quando criamos a OSCIP, não era presidente e nem fazia parte do corpo diretivo. O que me impressiona desses dez anos são as pessoas que sempre estiveram presentes, e com as quais tenho uma gratidão imensa, porque nunca teria conseguido construir tudo isso sem elas. A relação com elas é uma relação de pessoas que têm um olhar, que parte do mesmo ponto. Sempre foi uma ajuda muito grande na construção da AdC e uma companhia real”, explica Silvia.
A transformação da AdC em OSCIP representou muito mais do que uma mudança jurídica. Esse período consolidou uma forma de atuar baseada na centralidade da pessoa, na governança, no fortalecimento institucional e na construção de relações de confiança. Ao ampliar sua capacidade de articulação e estruturar sua metodologia, a organização deu um passo decisivo para unir profissionalização e propósito, preparando o caminho para novas parcerias, estratégias de sustentabilidade e um impacto cada vez mais consistente junto aos microempreendedores.


