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QUAL É O PROPÓSITO DE UM FUNDO PATRIMONIAL - Entrevista Diego Martins, Pragma - parte 2




Em março, a Aventura de Construir lançou o Fundo Patrimonial Aventura de Construir “Já, Devagar e Sempre”. É uma nova forma de apoiar o nosso trabalho e a educação de qualidade promovida pela AdC. Você pode colaborar com o fundo por aqui.


Mas você sabe como funciona um Fundo Patrimonial? Para responder a estas perguntas, conversamos com Diego Martins, da Pragma. Confira a primeira parte desta conversa neste link, e abaixo a continuação da entrevista.



AdC: Diego, retomando o assunto do Fundo Patrimonial da Aventura de Construir, qual é a importância deste mecanismo para a perenidade de uma organização? 


Diego Martins: Eu bato bastante na importância de um mecanismo de investimento bem estruturado, de uma governança bem estruturada e da destinação dos recursos de maneira clara. Isso porque quando falamos de endowment, ou Fundo Patrimonial, a gente fala em uma instituição que deve existir para os próximos 100, 200, 300 anos. O endowment é perene, é um fundo perpétuo. E algo que almeja ser perpétuo precisa ter uma estrutura de governança muito robusta. 


No meio desse caminho todo, desses séculos e séculos, as pessoas passam, mas a organização precisa continuar existindo. Então, se você não tiver um mecanismo muito bem desenhado de governança, das pessoas que passam pelo endowment, você terá muita dificuldade em perenizar o mecanismo de investimento.


Ter uma boa governança ajuda primeiro porque você precisa convencer o seu investidor, seu doador, de que aquele fundo vai existir para sempre. E segundo, porque ele precisa existir para sempre, senão o próprio objetivo dele não vai ser atingido. 


Então este é aspecto fundamental, a pedra angular para que o fundo exista. Porque, mais uma vez, algo que almeja ser secular, não pode depender de pessoas. As pessoas vão passar pela organização, mas o fundo tem que ficar e continuar executando o seu objetivo. 


E além da estrutura de governança, há outros elementos, como uma boa política de investimentos, de resgates, mecanismos adequados de rotatividade do comitê de investimentos, com uma longevidade bem definida, etc. 


Se você coloca períodos muito curtos de mandato para os membros de governança de um endowment, por exemplo, a responsabilização das pessoas fica prejudicada. Como um membro que vai ficar dois anos no comitê vai tomar decisões que vão maturar daqui a 10 anos? Como ele toma decisões para um negócio que ele não vai mais estar quando o resultado chegar?


Então, por fim, essas coisas precisam estar alinhadas, esse horizonte longo de investimentos com os ciclos de governança da organização. E tendo tudo isso muito bem amarrado ajudar na captação, porque você precisa mostrar para o seu doador que você tem uma estrutura robusta e de fato perene.



AdC: O que você achou do nome do Fundo da Aventura de Construir: “Já, Devagar e Sempre”?


Diego Martins: Eu gostei bastante do nome! Acho super adequado porque um fundo patrimonial é exatamente isso, o “devagar e sempre”. Devagar porque a mecânica do endowment prevê que, se tudo der certo, a organização vai ter um patrimônio super relevante, mas que você não pode usar completamente.


Se em algum momento um fundo chega a 100 milhões de reais, você sabe que ano após ano irá poder usar apenas o rendimento, porque você precisa perenizar os 100 milhões, e corrigir pela inflação. Esse passo a passo é o “devagar”. A perenidade que falávamos é o “sempre”. 


O “já” é bom por causa do impacto. Existe uma pressão saudável do lado organização de querer utilizar os recursos, que é esse “já” do nome. Apesar do fundo existir para sempre, eu tenho que apoiar minha causa agora, a minha causa precisa de recursos agora.


Por isso que eu gosto dessa tensão do nome de vocês, porque essa tensão ela precisa e vai acontecer. Você precisa ter uma organização que demanda o limite do possível para o comitê de investimentos, e um comitê de investimentos que faça a gestão do fundo no limite do possível para apoiar ao máximo a causa.


Eu acredito que esse equilíbrio é saudável, porque assim você chega de fato em um meio do caminho que cause o maior impacto possível. Esse cabo de guerra precisa acontecer, da organização pedindo por mais recursos e o comitê de investimento sendo prudente e segurando recursos.



AdC: A partir da sua experiência com o Fundo dos Amigos da Poli, e da sua experiência profissional, que conselhos você daria para fazer o Fundo da Aventura de Construir crescer?


Não se pode perder de vista o objetivo do endowment. O objetivo do endowment não é render, não é fazer o patrimônio crescer por crescer. O objetivo do endowment é perenizar a causa. Mas acho que já comentei alguns conselhos quando falei sobre a governança, sobre ter uma estratégia muito bem amarrada e conseguir comunicar isso pro doador. Assim você consegue facilitar seu processo de captação. 


Outra coisa que facilita muito este processo é mostrar o impacto do endowment. Na Amigos da Poli a gente percebeu que, obviamente, o doador gosta de ver resultado. Então não adianta querer ficar captando para o endowment por 10 anos, para só depois mostrar ao doador o uso desse recurso. Não. Deve-se tentar ao máximo mostrar que o mecanismo inteiro funciona, que o dinheiro que entra é dinheiro sendo gerido, e é dinheiro voltando pra causa. Se esse ciclo se completa, você mostra que o endowment é sadio e funciona bem.


Isso precisa ser mostrado para o doador, para não se perder o vínculo com ele. Tenha pressa, vamos dizer assim, em mostrar o mecanismo funcionando. E você não precisa ter 10 milhões para mostrar o mecanismo funcionando. Se você já tiver 50 mil, mostre o que pode ser feito com esse dinheiro. E se ano que vem o valor dobrar, você poderá fazer o dobro e esse valor segue rendendo. 


Assim você consegue tangibilizar para o doador o poder do mecanismo. Se hoje muitas pessoas já entendem o modelo de doação, agora elas precisam entender o poder deste modelo e o impacto que pode causar.


Captação de Recursos


Obviamente, o endowment sem dinheiro não é nada. Ele é um mecanismo financeiro, então precisa ser capitalizado. E a minha grande dica para captação, mais uma vez é estratégia. É preciso conhecer o seu público, conhecer o seu potencial doador e ter uma estratégia para tornar os doadores em potencial em captadores de causa.


Convencendo-o da causa, mostrando o impacto, você pede ajuda para apresentar o fundo a outras pessoas, aos amigos dele, sócios, e isso vai se tornando um círculo virtuoso. Para isso é preciso conhecer muito bem esse “funil de captação” e ter uma estratégia definida para que se gaste energia onde o potencial de captação for maior. Gastar muita energia sem ver resultado acaba dando uma desmotivada no time de captação, na organização, no conselho.


Então, mais uma vez, eu continuo acreditando que organizações com impacto positivo bem geridas e com uma estrutura adequada de endowment, ou seja, com modelo de endowment adequado, elas entram num círculo virtuoso. Eu tenho visto isso e fico muito feliz ao ver algumas organizações que têm entrado no círculo virtuoso de doação. E isso vira um problema bom. Se fala “puxa, e agora? Estou escalando muito rápido, como eu organizo isso?”



AdC: Então, não é preciso ter um valor altíssimo para começar a utilizar os rendimentos e demonstrar os resultados? 


Diego Martins: Às vezes é difícil você mostrar o poder de impacto com um patrimônio muito baixo. O que eu sugiro para as organizações que ainda tem essa insegurança de começar a usar o endowment, quando o patrimônio ainda é muito pequeno, é que pelo menos você tenha a governança em prática, ou seja, demonstre ter as devidas políticas de investimento e resgate. 


Assim, você consegue dar visibilidade ao menos a como o fundo está desenhado, quanto deve render acima da inflação e quanto pode ser resgatado. Explicar que “se nós quiséssemos usar os rendimentos neste ano, teríamos x valor para a instituição”.


Se a organização está de fato retirando do endowment ou se preferiu manter o excedente no fundo para aumentar, é muito mais uma questão de comunicação. Mas você consegue chegar para o seu doador e falar: "olha, este meu endowment já gera 50 mil por ano, que eu posso aplicar nas minhas causas". Você consegue tangibilizar isso para o doador e dar visibilidade que o mecanismo funciona. 


No caso da Aventura de Construir, vocês já têm apoiadores, projetos sendo executados. O nosso caso no Amigos da Poli era um pouco particular, porque criamos um endowment em um mundo em que não existia endowments. A gente precisou mostrar que o modelo funcionava e que era uma maneira eficiente de inserir dinheiro em uma universidade pública. Para isso precisamos retirar dinheiro do fundo, botar dinheiro na escola, para mostrar que o ciclo se fechava. Vocês já fecham o ciclo sem precisar dos recursos do endowment, vocês já sabem como fazer a execução de projetos na ponta final. 


Então, por fim, reforço que é preciso transmitir essa mensagem que o endowment está funcionando. E vocês conseguem demonstrar esse impacto na ponta, gerado pelos projetos. 



Você pode colaborar com o Fundo Patrimonial da Aventura de Construir! 

Acesse o link e apoie! Já, devagar e sempre!


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